Assessoria Astrológica Personalizada

A verdadeira vocação do ser humano

O que for a profundeza do teu ser, assim será teu desejo. O que for o teu desejo, assim será tua vontade.
O que for a tua vontade, assim serão teus atos. O que forem teus atos, assim será teu destino.
Brihadaranyaka Upanishad IV, 4.5

Convidado a dar minha opinião, resolvi escrever esta contribuição para o assunto palpitante – e para mim cada vez mais urgente – da transcendência, por considerar que esta é a verdadeira vocação do ser humano. Refletindo sobre como enfocar essa questão, decidi transmitir excertos de um livro, cuja leitura me foi indicada recentemente, chamado “Os demônios de Loudun”, de Aldous Huxley, o autor bastante conhecido por ter escrito “Admirável mundo novo”, que foi um baluarte da contra-cultura na década de 60. Esse outro livro, bastante menos conhecido, apresenta a história romanceada de Urbain Grandier, cura da cidade francesa de Loudun, no século XVII. A leitura do livro é fascinante, não só pela erudição do autor, que desvenda a intricada trama do pensamento místico da época, mas também e sobretudo pela análise que faz dessa questão da transcendência. Coloco aspas no excerto inteiro, porque são minhas apenas algumas palavras que costuram trechos do livro e do seu apêndice.

“Sem a compreensão do desejo profundo que têm os seres humanos de se autotranscenderem, da relutância natural que experimentam em tomar o caminho duro e difícil da ascensão espiritual, e da conseqüente procura de uma falsa libertação, ou abaixo ou sob um aspecto de sua personalidade, não poderemos entender a época em que vivemos ou mesmo a História em geral, a vida como foi vivida no passado e como o é em nossos dias. Por esta razão, proponho discutirmos alguns dos mais comuns sucedâneos da Graça, nos quais e através dos quais homens e mulheres têm tentado escapar da torturante consciência de serem apenas eles mesmos.

Introspecção, reflexão e registros do comportamento humano no passado e no presente tornam bastante claro que um anseio de autotranscendência é tão comum e às vezes tão forte, quanto a necessidade de auto-afirmação. Os homens desejam intensificar a certeza de serem a pessoa que pensam que são, mas também desejam – freqüentemente com incrível veemência – a sensação de serem alguma outra pessoa. Em suma, eles anseiam libertar-se de si mesmos, ultrapassar os limites desse pequeno universo isolado dentro do qual todo indivíduo se encontra confinado. Este desejo de autotranscendência não é semelhante ao desejo de escapar à dor física ou mental. Em muitos casos, na verdade o desejo de evadir-se da dor reforça o anseio de autotranscendência. Contudo, o último pode existir sem o primeiro. Se não fosse assim, as pessoas saudáveis e bem-sucedidas, que têm obtido “uma excelente adaptação à vida”, jamais sentiriam o anseio de transpor seus próprios limites. Mas na realidade elas o sentem. Mesmo entre aqueles a quem a natureza e a fortuna contemplaram generosamente, encontramos não poucas vezes um horror profundamente enraizado de sua própria individualidade, um forte anseio de livrar-se da repulsiva e mesquinha identidade à qual a absoluta perfeição de seu ‘ajustamento à vida’ os têm condenado sem sursis.

Qualquer homem ou mulher, o mais feliz (pelos padrões da sociedade), não menos que o mais desgraçado, pode chegar, de repente ou gradualmente, à percepção e ao conhecimento puro de seu ser. Esta compreensão intuitiva da individualidade gera um angustiante desejo de ir além do eu isolado. Em outras palavras, se experimentamos uma necessidade de autotranscendência é porque de algum modo obscuro e apesar de nossa ignorância consciente, sabemos quem realmente somos. Sabemos (ou, para ser mais explícito, alguma coisa no nosso íntimo sabe) que o fundamento de nosso saber individual é idêntico ao Fundamento de todo o conhecimento e de toda a existência; que Atman (a mente escolhendo adotar o ponto de vista temporal) é o mesmo que Brahman (a mente em sua essência eterna). Sabemos de tudo isso, embora possamos jamais ter ouvido falar das doutrinas nas quais a verdade Fundamental tem sido relatada, e ainda que aconteça de sermos versados nelas, podemos considerá-las ilusórias. E nós também conhecemos seu resultado prático, o qual propõe que o objetivo, fim, desígnio final de nossa existência é dar espaço no “tu” para o “Outro”, é afastar-se de forma que o fundamental possa vir à superfície de nossa consciência; é “morrer” tão definitivamente que possamos dizer: “Estou crucificado com Cristo; apesar disso estou vivo; contudo não eu, mas Cristo vive em mim”. Quando o eu consciente transcende a si mesmo, o Ego essencial está livre para perceber, em termos de uma consciência finita, a verdade de sua própria eternidade junto com a realidade correlata de que cada particular no mundo das sensações partilha da intemporalidade e do infinito. Isso é libertação, é esclarecimento, é a visão beatífica, na qual as coisas são apreendidas no que são ‘em si mesmas’, e não em relação a um eu odioso em seus desejos insaciáveis.

Sabemos de maneira vaga quem somos. Por isso nosso desgosto de precisarmos parecer ser o que não somos e o ardente desejo de ultrapassar os limites desse eu aprisionado. A única autotranscendência libertadora é através do altruísmo e entrega total à inspiração, ou na conscientização da união com o Fundamental na qual sem sabermos temos sempre vivido. Contudo, a autotranscendência libertadora é mais fácil de explicar do que de atingir. Para aqueles que se encontram intimidados pelas dificuldades do caminho ascendente, existem alternativas menos árduas.

A autotranscendência não é, de modo algum, invariavelmente dirigida para cima. Na verdade, na maioria dos casos é uma fuga, ou em sentido descendente, para um estágio inferior da personalidade, ou mesmo horizontalmente, para algo mais amplo que o ego e no entanto não mais elevado, não outro estado, essencialmente falando. Estamos eternamente tentando mitigar os efeitos da Queda coletiva na personalidade isolada, por outra queda estritamente pessoal no embrutecimento ou na loucura, ou por alguma mais ou menos recomendável evasão através da arte ou ciência, política, um hobby ou um emprego. É desnecessário dizer que estes sucedâneos, subumanos ou tão-somente humanos, da Graça, são na melhor das hipóteses insatisfatórios e na pior, desastrosos.

As alternativas ilusórias de transcendência trazem uma questão muito importante. Até que ponto e em que circunstâncias é possível a um homem usar o caminho descendente para atingir a autotranscendência espiritual? À primeira vista, tudo parece indicar que o caminho para baixo jamais terá a oportunidade de ser o caminho para cima. Mas no domínio da existência os problemas não são tão simples como são no nosso bonito e bem organizado mundo das palavras. Na vida real um movimento descendente pode algumas vezes se tornar o início de um ascendente. Quando a concha do ego é partida e começa a surgir uma consciência subliminar e fisiológica do “não-eu“ sob nossa personalidade aparente, acontece algumas vezes que captamos um lampejo, rápido mas apocalíptico, daquele “Não-eu“, que é o Fundamento de todo o nosso ser. Enquanto permanecemos isolados em nossa identidade, não temos consciência dos diversos não-eus aos quais estamos ligados – o não-eu orgânico, o não-eu subconsciente, o não-eu coletivo do meio psíquico no qual nossos pensamentos e sentimentos têm sua vida, e o imanente e transcendente não-eu do Espírito.

Qualquer fuga, mesmo através de um caminho descendente, para fora da individualidade insulada, torna possível uma percepção ao menos momentânea do não-eu em cada nível, incluindo o mais elevado. ‘Revelações anestésicas’ são algumas vezes experimentadas por alcoólatras e existem talvez momentos durante a intoxicação produzida por quase qualquer tipo de droga, quando a percepção de um não-eu superior ao eu em processo de desintegração se torna possível por um breve lapso de tempo; mas esses momentâneos surtos de revelação custam muito caro. Para os viciados em drogas, o momento de percepção espiritual (se acontece realmente) cede bem cedo lugar a um estupor subumano, exaltação ou alucinação, seguidos por terríveis ressacas, e a longo prazo, por um enfraquecimento permanente e fatal da saúde física e mental. Uma vez ou outra uma única ‘revelação anestésica’ pode agir, como qualquer outra manifestação da divindade, no sentido de estimular quem a experimenta a um esforço de autotransformação e autotranscendência ascendente. Mas pelo fato de tal coisa poder eventualmente acontecer, não se justifica o emprego de métodos químicos de autotranscendência. Esse é um caminho descendente e a maioria dos que o tomam atingirá um estado de degradação, onde períodos de êxtase subumano serão alternados por períodos de individualidade consciente tão miserável que qualquer fuga, mesmo que seja para o suicídio lento do vício das drogas, será preferível.

O que é verdade quanto às drogas, também o é, mutatis mutandis, quanto à sexualidade primária e à intoxicação das massas, embora esta última possa desintegrar o ego muito mais profundamente do que aquela. Entretanto, uma análise mais detalhada destas duas modalidades de autotranscendência descendente prolongaria demasiadamente este artigo.

No que se refere à autotranscendência horizontal, pouco precisa ser dito – não porque o fenômeno não seja de importância (longe disso), mas por ser por demais óbvio para exigir análise e por ocorrer com tanta freqüência que se torna difícil de ser classificada em poucas palavras. Para escapar dos horrores do eu insulado, a maior parte dos homens e mulheres escolhem, na maioria das vezes, não subir nem descer, mas escapar para os lados. Eles se identificam com uma causa maior que seus próprios interesses imediatos, mas que não os faz cair na degradação, e, se mais elevada, sem ultrapassar os níveis dos valores sociais correntes. Esta autotranscendência horizontal ou quase horizontal pode estar em qualquer coisa tão trivial quanto um hobby, ou tão valiosa quanto um casamento por amor. Pode ser produzida através da auto-identificação com qualquer atividade humana, desde a gerência de um negócio até a pesquisa sobre física nuclear, de compor músicas até colecionar selos, do dever político de educar crianças aos estudos dos hábitos matinais dos pássaros.

A autotranscendência horizontal é da maior importância. Sem ela não haveria arte, ciência, lei, filosofia, nem, na verdade, civilização. E não haveria também guerra, nem constantes intolerâncias, nem perseguições. Esses grandes bens e imensos males são decorrentes da capacidade do homem para uma total e constante auto-identificação com uma idéia, um sentimento, uma causa. Como poderemos ter o bem sem o mal, uma civilização avançada sem bombardeio de saturação ou extermínio de hereges políticos ou religiosos? A resposta é que não poderemos ter isto enquanto nossa autotranscendência permanecer apenas horizontal. Quando nos identificamos com uma idéia ou causa estamos de fato adorando alguma coisa comum, incompleta e provinciana – alguma coisa que, embora nobre, é contudo ainda demasiadamente humana. “Patriotismo“, como uma grande patriota concluiu no dia de sua execução pelos inimigos de seu país, “não é o suficiente“. Nem o socialismo nem o comunismo, nem o capitalismo; nem a arte, a ciência, a ordem pública, nenhuma religião ou igreja. Tudo isso é indispensável, mas nada disso é o bastante. A civilização exige do indivíduo uma auto-identificação devotada às mais elevadas causas da humanidade. Mas se esta auto-identificação com o que é humano não é acompanhada por um esforço consciente e congruente, visando a atingir a autotranscendência ascendente, no sentido da vida universal do Espírito, os bens alcançados estarão sempre misturados a males que os contrabalançam. “Fazemos“, escreveu Pascal, “da verdade um ídolo; porque a verdade sem amor não é Deus, mas Sua imagem e ídolo, a quem não devemos amar nem venerar“. E não é apenas errado adorar um ídolo; é também excessivamente inconveniente. A adoração da verdade separada do amor cristão – auto-identificação com a ciência não acompanhada de identificação com o Fundamento de todo o ser – resulta no tipo de situação com que presentemente nos defrontamos. Todo ídolo, por mais sublime que seja, transforma-se, com o tempo, num Molock, faminto de sacrifício humano.”

Marco Aurélio Teixeira Fernandes

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