Só mais um blog do WordPress

 Página 1 de 4  1  2  3  4 »

1. Introdução

O ser humano tem uma estrutura constitutiva muito complexa. Além da sua constituição do ponto de vista energético, podemos citar diretamente a constituição do ponto de vista bio-fisiológico, com a imbricação do funcionamento dos sistemas orgânicos, nervosos, do endócrino e do imunológico; a complexidade desse ‘organismo vivo’ (como um todo) nos permite perceber e expressar como e quanto é complicada a questão do ego versus a possível consciência de si, ao alcance do indivíduo como tal.

Se somarmos a essa percepção o fato de que usualmente ninguém vive sozinho, no sentido de que depende de um grupo familiar para nascer, crescer etc e do grupo social para se relacionar e exercer atividades profissionais, é facilmente aceitável que o contato de um indivíduo consigo mesmo (com seu interior, seus recursos, qualidades e talentos, bem como suas limitações, — aí incluída sua carga genética) não pode ser mecânico, mas sim, depende de um esforço consciente e (de preferência) consistente ao longo de sua vida.

Assim sendo, o contato e vínculo de um indivíduo com seu processo de individuação – que inclui a questão da saúde, num sentido amplo – depende do reconhecimento do e do interesse por seu ser interior. Saliente-se que esse interesse reflete um processo dinâmico, que pode se iniciar em qualquer época da vida do indivíduo, desde muito cedo até muito tarde. Independentemente disso – e enquanto isso, salvo exceções – o indivíduo se percebe na contingência de existir dentro do grupo familiar e do grupo social, nos quais deve desempenhar funções, que requerem sua participação no mundo exterior.

Em decorrência, o modo e a forma como o indivíduo se relaciona consigo mesmo e com o mundo que o cerca refletem a dinâmica do processo do seu bem-estar, que inclui a questão de sua saúde (no sentido amplo). Caso o indivíduo reconheça a necessidade do contato e vivência (do e) com seu ser interior, poderá colocar-se diante do processo que se tem chamado de metanóia (uma mudança do processo mental, um voltar-se para uma nova direção, para a Luz), o qual conduzirá a um desengajamento em relação à identificação (pura e exclusiva) com o mundo material e a um engajamento num processo de amadurecimento individual (ou individuação, no sentido estrito), o qual em última instância poderá conduzir à religação com o Self.

E podemos acrescentar que o desenvolvimento do ego na direção da totalidade só vai ser conseguido com a integração do corpo nesse processo, integração essa que implicará o equacionamento da referida questão da saúde. Um sintoma, qualquer que seja, quando visto como símbolo, expressa a necessidade de integrar um elemento novo ou reprimido na consciência.

Para James Hillman (1), fatores como sentimentalismo da personalidade, eficiência a todo custo, engrandecimento do poder e simples fervor religioso são fatores atuais que podem levar a doenças, destacadamente as cardíacas. Para ele, o infarto (que vem de farto, farctus = estufado, cheio) revela que o coração do homem moderno está congestionado pelas riquezas que não entraram em circulação, ou que foram constrangidas por estreitamentos, não tendo permissão para passar, riquezas estas que vêm do mundo da fantasia e da imaginação.

Poderíamos dizer que o ego, ao não dar passagem aos conteúdos inconscientes, aumenta a tensão interna, gerando angústia e ansiedades. Quando esses conteúdos estão associados a conflitos amorosos, por exemplo, o resultado pode ser uma sensação de disritmia e desarmonia amorosa. O coração doente expressa tanto a dissociação do ego com seu centro amoroso como a necessidade de religá-lo ao Self, para que a harmonia possa retornar.

Portanto, esse enfoque na religação do ego com o Self é fundamental para o estabelecimento do bem-estar do indivíduo – visto de maneira abrangente – e da sua saúde em particular, pois ele possibilitará o desenvolvimento do processo de individuação (Jung), que é importante para o ser humano. Ou seja, uma vez que o processo de individuar-se, de tornar-se o que a pessoa realmente é, resulta da interação do indivíduo também com o coletivo, quanto melhor essa sintonia com a própria essência, melhor o contato com o mundo ao redor — e o equilíbrio do ser integral se estabelece.

No seu trabalho clínico, um terapeuta, ao levar em conta o aspecto simbólico da doença orgânica, faz com que seu paciente entre em contato com imagens que emergem de seu inconsciente coletivo e pessoal, criando, deste modo, condições para uma compreensão mais profunda do dinamismo que se encontra alterado. Assim sendo, a relação do paciente com sua doença e recuperação está intimamente ligada ao seu processo simbólico.

Por outro lado, a inconsciência do significado simbólico dos problemas interiores mostra a nossa resistência em lidar com o dinamismo psíquico. Em conseqüência, podemos verificar que o sintoma corporal é um símbolo que expressa uma dissociação e revela um caminho. Depende do ego se ele vai ser compreendido, isto é, se vai ser dado a ele um significado ou se ele vai continuar sendo visto como algo que tem de ser eliminado ou ignorado. Essa eliminação, sem a consciência do significado, traz uma alta probabilidade de um sintoma aparecer e reaparecer, como atestam os inúmeros casos recorrentes de úlceras e doenças cardíacas, entre outros.

De acordo também com Denise Gimenez Ramos (2),

“A bússola do ego em direção à totalidade é dada pelo símbolo. Um desvio de rota também é revelado pelo símbolo e representado, com freqüência, pelo sofrimento. Mas, assim como o símbolo aponta o erro, pelo sofrimento envolvido, também aponta, pela compreensão de seu significado, a correção a ser feita, isto é, o que deve ser sacrificado. Entretanto, simplesmente pela forma com que um símbolo se apresenta (doença ou saúde), não podemos dizer se ele aponta para a necessidade de uma correção ou se revela uma próxima etapa a ser atingida no desenvolvimento normal. Em geral, as intenções se mesclam e de início a consciência não as discrimina.”

De um modo geral, os processos terapêuticos procuram diagnosticar o maior número possível de elementos que restrinjam a resposta natural do ser, desbloquear as suas restrições, encorajá-lo a confrontar seus desafios e desenvolver seus talentos e, em última instância, ajudá-lo a se situar na expressão espontânea de sua energia vital. Nesse sentido, um estudo astrológico (que deve incluir a análise do mapa natal, de progressões e de trânsitos num dado momento) pode ajudar de maneira inestimável um profissional qualificado para tanto; e a defesa deste autor é de que Quíron é muito importante nesse estudo.

2. Quíron, metanóia e consciência

Tendo como referência um enfoque amplo dos ciclos planetários considerados mais importantes (de Saturno a Plutão, passando por Quíron) –, do ponto de vista dos desafios, ou seja, das crises propiciadas pelas quadraturas, oposições e retornos, — pode-se perceber que ninguém passa incólume por notáveis influências na década dos 40 aos 50 anos, porque então se dá (sempre em termos aproximados) =

40 anos = oposição de Urano em trânsito a Urano natal;

42/43 anos = quadratura de Netuno em trânsito com Netuno natal;

44/45 anos = segunda oposição de Saturno em trânsito a Saturno natal;

45/46 anos = quadratura de Plutão em trânsito com Plutão natal…

De um modo geral, pode-se dizer que quem teve ou tiver boas sintonias ao longo dessa década, chegará aos 50 anos sentindo uma espécie de renascimento, que ocorre logo após um dos retornos de Júpiter (aos 48 anos); e é por isso que mais adiante se fala em redirecionamento, que tem a ver com a metanóia citada anteriormente.

E então, é aqui que se pode incluir o desafio de Quíron, cuja órbita se situa a maior parte do tempo entre a de Saturno e a de Urano, constituindo basicamente uma ‘ponte’ entre ambos e cujo ciclo (retorno) se dá por volta dos 51 anos da pessoa; como sua órbita é bastante excêntrica e segue uma elipse, passa muito mais tempo em alguns signos do que em outros, razão por que suas quadraturas e oposições variam muito em percurso (tempo), dependendo do ‘lado’ do Zodíaco em que se encontra (mas não se mencionam aqui indicações a respeito delas, porque isso seria muito extenso – v. também o artigo ‘Quíron e seu mito’, neste site).

Assim sendo, do ponto de vista da ‘cura’ do ser humano, a ‘chacoalhada’ final (esticando aquela década para cerca de 11 anos) se dá com esse retorno de Quíron. Em seu ótimo livro “Quíron e a jornada em busca da cura”, Melanie Reinhart considera que ‘a configuração de Quíron quase sempre descreve o tipo de conexão existente entre o indivíduo e seu sofrimento interno, bem como um caminho passível de levá-lo à cura… e também descreve a natureza da cura que a pessoa pode oferecer aos outros. Essa faculdade é observada quer a pessoa trabalhe ou não profissionalmente no campo da cura, porquanto se trata mais de uma qualidade natural, de uma emanação, do que de uma técnica aprendida’.

Desta forma, Quíron indica o ‘curador ferido’, a área onde sentimos medo (o que também é representado por Saturno) ou onde sofremos dor ou danos, mas, se processado e compreendido adequadamente, podemos aprender muito com ele: ou seja, para dissolver nossa dor existencial, podemos desenvolver nossa ‘metade superior’ (dharma) à custa da ‘metade inferior’ (karma), o que nos remete à própria imagem de Quíron, cuja metade superior era representada pelo curador sábio, e a metade inferior, pelo animal ferido.

De acordo com Bárbara Hand Clow (ver adiante), o glifo de Quíron parece uma ‘chave’, que pode ser interpretada como a chave para a busca da transmutação / transformação pessoal; e ela expressa que ele é estreitamente ligado com seu meio-irmão Júpiter, o tradicional regente de Sagitário e da Casa Nove – áreas do mapa astral ligadas com buscas de todos os tipos. Por essas razões é que se considera que em sua interpretação básica Quíron pode ser considerado como conferindo significados mais concernidos (e vinculados com o nível espiritual) para o indivíduo, de acordo com sua colocação no mapa natal, em virtude do que este autor defende seu uso nos estudos de orientação vocacional (para jovens, sobretudo em torno de seus 17-18 anos) e redirecionamento de carreiras profissionais.

Por outro lado, é evidente que Quíron, como qualquer corpo ou ponto no mapa natal, percorre por trânsito toda a circunferência, portanto fazendo aspectos diversos com todos os outros corpos e pontos. Assim sendo, ele pode ser levado em conta em qualquer estudo astrológico que analise de forma mais aprofundada os concernimentos do indivíduo com os significados mais profundos da vida, razão pela qual também deve ser levado em conta nos estudos de saúde, aqui considerada como o equilíbrio dinâmico resultante da sintonia básica do mesmo com o Divino (sua origem e destino como Ser).

De outro ponto de vista, em se levando em conta a dinâmica representada na Astrologia pelas progressões e trânsitos, conforme expressa Bárbara Hand Clow (3), ‘os trânsitos planetários são uma oportunidade de acelerar as vibrações com o crescimento. É nossa resposta celular à própria vida e, se conseguimos evitar o trabalho de um dos trânsitos, começamos a morrer naquele ponto.’ Segundo ela, o primeiro retorno de Saturno dinamiza uma ‘crise física’; a oposição de Urano em trânsito com Urano natal, uma ‘crise emocional’. E o retorno de Quíron, a ‘crise da consciência’, o que confere um significado especial para esse retorno e a época correspondente, na vida das pessoas.

É importante destacar ainda que, sendo o tempo orbital de Quíron nos signos bastante variável, e estando ele atualmente no signo de Aquário, começou recentemente a percorrer a parte mais longa daquele tempo orbital (que é completado por Peixes, Áries e Touro: ele entrará em Gêmeos somente em maio/2034, o que significa que estará ocupando de Aquário a Touro durante 29 anos, ou seja, nos quatro signos em questão ele estará demorando cerca de 56% do total de seu tempo orbital ). Além disso, é mais importante ainda ressaltar que, estando o Ascendente do mapa da descoberta de Quíron a 26°04’ de Sagitário, está ele em conjunção com o centro de nossa galáxia (atualmente a 26°56’), e que Plutão atingiu esse grau (26° de Sagitário) em fevereiro deste ano (2006), o que nos permite interpretar que o poder transformativo representado por Plutão atualmente está transmitindo um influxo especial para Quíron, conferindo a este um maior poder de transformação (vale lembrar que Plutão entrará em Capricórnio somente em janeiro/08). Para enriquecer ainda mais esses significados, destaca-se que o símbolo sabiano para a posição de Quíron no mapa de sua descoberta (a 03°09’ de Touro) menciona ‘o pote de ouro no fim do arco-íris’; Dane Rudhyar (4) dá a chave para esse significado, como a plenitude que flui da conexão com a natureza celestial (ou divina), e sugere que aponta para algum tipo de transubstanciação da matéria.

Assim sendo, é fácil perceber que Quíron está atualmente contribuindo sobremaneira para que as pessoas imprimam um redirecionamento a suas vidas, voltando-se mais para os focos relacionados com o mundo interior, do amadurecimento como indivíduos e seres humanos – e portanto do desenvolvimento (e evolução) de suas consciências. Conforme apontado anteriormente, é natural que se espere mais o que acaba de ser apontado, de pessoas que já tenham passado pelo retorno de Quíron. Em qualquer caso, entretanto, o potencial do indivíduo deve ser examinado no seu mapa natal e nos trânsitos mencionados, com destaque para a colocação de Quíron (por signo e Casa) e os aspectos que ele tenha com os demais pontos do mapa; e também a progressão por arco solar e o trânsito atualizado (incluindo signo, Casa e aspectos, conforme citado anteriormente): tal estudo, completo, poderá fornecer as diretrizes para a dinâmica do processo supracitado, o qual, em última análise, deve conduzir para a realização do indivíduo como Ser Humano.

********************************************

1 – Hillman, James The thought of the heart ., Dallas: Spring, 1981
2 – Denise Gimenez Ramos, A Psique do Coração, Cultrix, São Paulo
3 – Bárbara Hand Clow, Quíron, Pensamento, São Paulo
4 – Dane Rudhyar, Uma Mandala Astrológica, Pensamento, São Paulo

Minimizar

1. O mito

Segundo o mito, Quíron é filho de Saturno (Cronos) e da ninfa Filira. O deus, para se esconder da esposa Réia, se metamorfoseou em cavalo para se encontrar com Filira: dessa união nasceu o centauro, metade cavalo e metade homem. Quando a mãe viu a criatura horrorosa que havia posto no mundo, pediu aos deuses que a transformassem numa coisa diferente:  seu pedido foi atendido, e ela foi transformada numa árvore chamada Tília.

Quíron ficou abandonado: o pai fugiu e a mãe não quis saber dele.  Imortal, por ser filho de Saturno, Quíron sobreviveu, sendo encontrado por Apolo (deus do Sol dos gregos).  Como pai adotivo, Apolo lhe ensinou todos os seus conhecimentos: artes, música, poesia, ética, filosofia, artes divinatórias e profecias, terapias curativas e ciência.

Adulto, tornou-se ele um grande sábio, profeta, médico e mestre, transmitindo seus conhecimentos a todos que desejassem aprender.  Os heróis gregos (Hércules, Asclépio, Aquiles, Jason etc.) foram pupilos de Quíron, assim como os filhos dos reis da Grécia.  Ele era o ‘centauro chefe’ e o preceptor máximo, tanto das artes da sobrevivência, como da cultura, da filosofia, e passou a orientar e burilar o intelecto dos discípulos, ficando conhecido também por preparar os futuros heróis. Quíron era ainda expert no uso da medicina de ervas e plantas e em Astrologia. Ele tinha o poder de cura nas mãos, e o que não conseguia curar, ninguém mais conseguia.

Mas um dia, durante a festa de casamento de um filho de um rei, os centauros convidados se embriagaram e começaram a perseguir as mulheres, inclusive a noiva. Travou-se uma batalha entre os centauros bêbados e os convidados, entre os quais estava Hércules, que, acidentalmente, feriu Quíron, também presente à festa, com uma flecha, ou na coxa, ou na perna, ou no pé (há várias versões) ou seja, na parte animal do corpo.  A flecha de Hércules, que havia sido banhada no sangue da Hidra (e sendo portanto venenosa), causou em Quíron uma ferida incurável; impotente para curar seu ferimento e não podendo morrer por ser imortal, ele começou a sofrer intensamente, recolhendo-se a uma gruta no monte Pélion onde, porém, continuou transmitindo seus conhecimentos aos discípulos.

Por outro lado, Prometeu havia roubado o fogo dos deuses e dado para os homens, tendo sido, por isso, castigado por Zeus, que expressou que só o libertaria se um imortal abrisse mão de sua imortalidade e fosse para o Hades (reino subterrâneo, inferno) em seu lugar.  Com pena de Prometeu e de Quíron, Hércules propôs a Zeus que soltasse Prometeu, pois Quíron faria isso: Zeus concordou, liberando Quíron de seu sofrimento, para morrer tranquilamente. O deus o homenageou, colocando-o no céu como a constelação de Sagitário (sagitta: flecha)

O ‘curador ferido’ ainda aparece em muitas das nossas palavras derivadas do grego antigo: a palavra cheir, que significa mão, compõe não somente o nome de Quíron (a forma antiga é Kheiron), mas também diversas palavras que servem para amplificar o arquétipo do Centauro Chefe: figura em quiromancia, quirografia, quiroprática e quirurgia, que veio a ser cirurgia.Na base de todas as derivações está cheir, a mão, que parece simbolizar o arquétipo de Quíron, que significa a união do intelecto com o instinto/mental e corpo/humano e animal. Talvez a melhor ilustração disso seja em algo muitas vezes expresso por artistas: que na criação de uma obra de arte entra primeiro a cabeça e depois a mão, denotando a avaliação final, se o trabalho será realmente inspirado ou meramente um exercício técnico.

E então, a partir do mito, aprendemos que o significado astrológico de Quíron abarca os arquétipos de Professor, Curador, Músico, Buscador, Mestre Astrólogo e Guia de Busca. Ele simboliza a auto-realização e a satisfação pessoal através de uma união holística da razão com a paixão, do intelecto com o instinto, do animal com o humano. Ele é estreitamente ligado com seu meio-irmão Júpiter, o tradicional regente de Sagitário e da Casa Nove – áreas do mapa astral ligadas com buscas de todos os tipos.

2. A descoberta de Quíron e suas implicações:

a) O chamado planetóide Quíron, descoberto pelo astrólogo Charles T. Kowal, de um observatório na Califórnia (EUA), em 1º de dezembro de 1977, na verdade já havia sido fotografado desde 1895. Foi o que constataram os astrônomos de todo o mundo quando, alertados pela descoberta do novo corpo — que não sabiam ainda se era um cometa, um asteróide ou um planeta — começaram a pesquisar fotografias antigas do céu.  Na época, os astrônomos não haviam se interessado por aquele ‘objeto’ desconhecido (v. mapa da descoberta, anexo); mas é interessante destacar o seguinte:

- O glifo de Quíron parece uma ‘chave’, que pode ser interpretada como a chave para a busca da transmutação / transformação pessoal.

- O símbolo sabiano para a posição de Quíron no mapa de sua descoberta menciona o ‘pote de ouro no fim do arco-íris’; Dane Rudhyar (o autor do livro sobre os símbolos sabianos) dá a chave para esse significado, como ‘a plenitude que flui da conexão com a natureza celestial (ou divina)’, e sugere que aponta para algum tipo de transubstanciação da matéria.

- A posição do Ascendente, a 26°04’ de Sagitário, simboliza a identidade pessoal que Quíron projeta neste mundo; o grau correspondente é representado por um escultor trabalhando, uma clara indicação da habilidade que nós humanos temos para transformar a matéria de acordo com nossa visão pessoal; ocorre que o centro de nossa galáxia atualmente (09.06.06) se localiza a 26º56′ desse signo, o que torna esse posicionamento bastante destacado em termos energéticos.

- A posição do Sol, em Escorpião, indica a transmutação da matéria (criando, de ordinários mortais, heróis míticos) e, com a posição do Ascendente, a realização da Busca (o pote de ouro no fim do arco-íris).

b) Destaca-se a analogia com o ‘Princípio da Sincronicidade’, de Jung: qualquer coisa que seja feita ou nasça num determinado momento, participa de ou revela o significado essencial desse momento. Podemos dizer que a Astrologia tem muito a ver com sincronicidade, o que quer dizer que esse fenômeno é muito anterior a Jung. O mapa natal revela o indivíduo porque revela o momento do seu nascimento. Assim sendo, o indivíduo, o mapa natal e o momento do nascimento são três facetas da mesma realidade.

c) As descobertas de Urano (em 1781), Netuno (em 1846) e Plutão (em 1930) tiveram a ver com eventos mundiais importantes para a humanidade, nessas épocas. Quanto a Quíron, talvez o assunto mais importante no mês de sua descoberta tenha sido, em 19.11.77, a reunião entre o presidente do Egito, Anwar Sadat, e o primeiro-ministro de Israel, Menachem Begin, para discutir a paz entre esses dois países, do que resultou o isolamento do Egito em relação aos seus vizinhos árabes; e isso deve ter contribuído para o assassinato de Sadat.

Em termos mais gerais, 1977 marcou uma época em que, pelo menos nos Estados Unidos, passou a ser focada muita atenção para o que veio a ser chamado de ‘Medicina Holística’.

Em vários exemplos ocorridos na segunda metade da década de 1970, podemos ver analogias com Quíron como um baluarte de sua raça, o único Centauro que deixou a companhia daqueles de sua espécie para buscar o que ele sentiu ser um caminho melhor de vida.

3. A órbita de Quíron

A órbita de Quíron se completa entre 49 e 51 anos; como ela é bastante elíptica, quando ele está mais próximo do Sol, ela entre na de Saturno; e quando ele está mais longe do Sol, ela se aproxima da de Urano (mas não a cruza): unir esses dois opostos, como Quíron faz, é como criar uma forma holística de consciência, que transcende a tensão entre eles (por isso, simboliza uma ponte de ligação entre esses dois planetas). A natureza muito elíptica da órbita faz com que ele fique pouco tempo p.ex. em Libra (cerca de 1,75 anos) e muito tempo p.ex. em Áries (cerca de 8,25 anos), com as implicações decorrentes (sobretudo no que diz respeito ao tempo variável que decorre para as quadraturas e oposições).

4. Quíron nos hemisférios, nos quadrantes, nos elementos e nas modalidades

O livro citado de Richard Nolle² faz uma boa análise da posição de Quíron conforme título acima; entretanto, o que merece um destaque maior é sua presença nos hemisférios: no hemisfério inferior (mais ligado com o mundo interior do indivíduo) ou no hemisfério superior do mapa natal (mais ligado com o mundo exterior do indivíduo). Segundo aquele autor, quem tem Quíron no hemisfério inferior geralmente tem ‘uma inquietude subconsciente que trabalha sob o nível da percepção racional, para produzir oportunidade para crescimento transcendental.’ Já quem tem Quíron no hemisfério superior geralmente ‘tende a projetar a função de Quíron em outras pessoas; ao invés de iniciar independentemente o processo que leva a uma confrontação com o mestre interior, o indivíduo terá probabilidade maior de ser beneficiário de contatos com outras pessoas, que farão o papel de mestres.’

Exemplos destacados de Quíron no hemisfério inferior são os mapas de Sigmund Freud, C. G. Jung, Hermann Hesse, Mohandas K. Gandhi, Martin Luther King Jr. e John Lennon;, quanto à posição no hemisfério superior, podemos citar Annie Besant, Bob Dylan e Carlos Castaneda ( de acordo com o citado naquele livro). Mas o exemplo mais notável é o do conhecido astrólogo Dane Rudhyar: em um excelente artigo sobre Quíron³, Candy Hillenbrand cita que ‘Rudhyar foi o pioneiro (Áries) de uma abordagem Harmônica (Libra) para a Astrologia (Quíron), e essa se tornou sua maior contribuição para o mundo (Quíron em conjunção com o MC – a 12º06′ de Libra, nota deste autor). Rudhyar também foi artista, poeta, e compositor musical. Ele escreveu acerca de uma abordagem ‘estética’ para a vida, de uma maneira muito bem simbolizada por Quíron em Libra.’

5. Quíron nos signos e nas Casas

Sem dúvida, a aproximação e a abordagem de uma busca por transmutação / transformação será colorida pelo elemento e modalidade em que se encontra Quíron no mapa natal do indivíduo.

Entretanto, basicamente se pode dizer que Quíron nos signos geralmente indica a predominância de uma busca ou de uma crise, na vida presente: em Áries, a busca da identidade; em Touro, a busca de valores no plano material; em Gêmeos, uma crise pessoal com respeito à integração aqui na Terra, que afeta grandemente o equilíbrio e o sistema nervoso; em Câncer, uma crise relativa a raízes culturais e/ou uma crise de proteção pessoal (o indivíduo se sente preso ao passado); em Leão, uma grande crise do ego, que irá aperfeiçoar gradualmente o nativo, até a maestria da vontade; em Virgem, a busca de uma re-sintonia com a dinâmica da cura (inclusive interior); em Libra, a busca do equilíbrio do eu em relação ao outro; em Escorpião, uma crise de morte/transformação ou uma escolha significativa de viver, relacionada com os temas da Casa que contém Quíron; em Sagitário, uma crise relativa à integração do Eu Superior na consciência da pessoa; em Capricórnio, uma crise cármica em relação ao êxito na busca e ao equilíbrio na vida, entre o sucesso e a subsistência normal; em Aquário, uma crise quanto a estar fundamentado, quanto a viver na Terra de um modo equilibrado; em Peixe, uma crise a respeito de unir-se com a força divina, a unicidade universal. (Barbara Hand Clow¹).

Já Quíron nas Casas revela a qualidade da compreensão da vida em relação à alma; revela o caminho da alma, o ponto de pedra-de-toque para a realidade multidimensional, e o método que o nativo deve aperfeiçoar para aprender a maneira de curar. (B.H.C.). Por exemplo, a chave para Quíron na C. 2 é ajudar os clientes a definirem melhor seus valores.

O aconselhamento mais eficiente com Quíron é sempre o de ajudar o cliente a tornar-se consciente dessa energia, para que possa dirigi-la melhor.

No primeiro livro (em termos de publicação) mais destacado sobre Quíron ², Richard Nolle expressa o seguinte:

“A Astrologia, como é comumente praticada, é descritiva e fatalista. É usada como um meio para revelar um caráter supostamente imutável, para revelar um destino que é (mais ou menos) possível acontecer. A Astrologia simbolizada por Quíron é, por outro lado, criativa e transformativa. Ela não lhe diz meramente o que você é em termos de tantos traços de caráter. Ela não lhe mostra um mapa com tantas realidades alternativas, sendo que alguma combinação delas se provará ser o seu destino. Quíron, devemos lembrar, era um preceptor, alguém que as pessoas procuravam quando se preparavam para feitos heróicos. O supremo ato de heroísmo é a transformação do self, a criação do destino através da transcendência do fado. É a esse tipo de Astrologia criativa e alquímica que Quíron dá significado.”

6. Os aspectos com Quíron

Em geral, o número de aspectos entre Quíron e os outros planetas indica o grau de poder de cura e os padrões de resposta alquímica natural no interior do nativo.

Um Quíron bastante aspectado é (mostra) igualmente o caminho para a cura do eu (ou ego). Com freqüência poderosas quadraturas e oposições de Quíron com os planetas interiores estão levando o nativo a uma grande cura interior.

Quanto aos nodos lunares, podemos dizer que Quíron em aspecto com os mesmos indica uma ligação kármica com a arte da cura, devendo o indivíduo fazer uma análise mais direta das energias envolvidas, de forma a sintonizar mais e melhor a acentuação que deve dar ao conhecimento do seu dharma (Quíron + nodo norte) ou karma (Quíron + nodo sul), tendo como referência o foco vinculado com saúde e cura.

7. O significado de Quíron – uma visão-resumo

Além do exposto em outro artigo (Quíron, metanóia e consciência) vale a pena destacar o que expressa a respeito a astróloga australiana Candy Hillenbrand ³ num ótimo artigo a respeito de Quíron:

“O significado psico-espiritual do mito de Quíron continua a evoluir, e já se escreveu bastante a respeito dele. Geralmente descrito como ‘O curador ferido’, Quíron é um princípio arquetípico com o qual muitos astrólogos e terapeutas têm se identificado, e aplicado no trabalho com clientes. Em Astrologia, o Quíron natal pode ser encarado como um indicador da ‘ferida quirônica’ ou ‘ferida psíquica’, representando problemas (ou danos) psico-emocionais não-resolvidos, provenientes de traumas na infância ou de experiências subseqüentes – problemas que, muitas vezes conscientemente acessíveis, mas frequentemente reprimidos ou até ‘dissociados’, ainda gritam por remissão e cura. Muitas vezes a ferida psíquica é interpretada como um ‘dom oculto’, que age como um estímulo para a descoberta de si-mesmo. Mas mais frequentemente se considera que as energias de Quíron propiciam o conflito do ego e a desilusão com uma onipotência ilusória (daí uma metanóia – nota do autor.), conduzindo para uma percepção transpessoal, transcendência e crescimento psico-espiritual (ou auto-transformação).”

mapa_descoberta
Mapa da descoberta

*****************************************************************

(1) QUÍRON – Ponte de Ligação entre os Planetas Interiores e Exteriores
  1. CHIRON – The new planet in your horoscope, The key to your quest
  2. The Centaur Connection: Expanding Chiron’s territory

Nenhuma tag Minimizar

Você pensa que conhece uma pessoa: pensa; mas não a conhece. De um modo ou de outro, as pessoas estão sempre surpreendendo você. Para o melhor para o pior. De um jeito diferente… Do jeito do ‘outro’.

Pensando em termos astrológicos, quanto às características dos signos, pela maior ou menor predominância de cada um dos quatro elementos no Mapa Astral, (fogo, terra, ar e água) pode-se estimar as reações mais prováveis em cada um. A Astrologia é valiosa na compreensão dos sentimentos e atitudes do outro. E também para avaliar, entender e melhorar os relacionamentos.

O elemento FOGO está associado a impulso, criatividade, liderança e idealismo. O fogo tão forte, brilhante, em seu calor consome tudo e até a si mesmo. Simboliza a transformação e a purificação que leva às cinzas. Os signos do elemento fogo são Áries, Leão e Sagitário.

Áries, o primeiro signo zodiacal, por sua impulsividade e pressa está sujeito a muitos recomeços. Tão instintivo e reativo, costuma esquecer-se de perguntar a opinião do outro. Coragem, ousadia, rapidez, prontidão. Quando viu, já foi… Esperar? Nem pensar… E esqueceu?… Do quê? Ciumento, parte do pressuposto de que o primeiro lugar é o dele. Consome muito fogo ao dar a partida, esquece de reservar energia para ir até o final. Impacienta-se com gente indecisa ou mais reflexiva. Se existe o “agora” por quê deixar para amanhã?

E o Rei Leão tão altivo, do alto de sua liderança e prestígio, nem sempre sabe pedir. Mandar é algo mais próprio de Leão. Grande coração, leal com os seus, mas, orgulhoso, pode retirar-se para não se mostrar em situação de desvantagem ou vulnerabilidade. Pode perder oportunidades por não querer pedir ajuda, aceitar opiniões… O fogo de Leão é tão intenso que nem sempre se dá conta de que em seu ímpeto e individualidade pode estar “queimando”, até ferindo, alguém próximo de si.

Ah, Sagitário… e seus altos vôos. Sua crença inabalável. O mundo é grande para Sagitário e seu maior desafio é compatibilizar seus ideais com a realidade do quotidiano. A franqueza sagitariana – quando viu, já falou. E, se falar a verdade assim, tão claramente, incomoda, seu otimismo vai abrindo portas para novos horizontes. Sua esperança e a fé são impulsores para a frente e para o sucesso.

O elemento TERRA tem a ver com estabilidade, solidez, segurança material e profissional. As pessoas com predominância de terra tendem a estabelecer vínculos materiais e de estrutura, tanto do ponto de vista material, quanto do tradicional, familiar. Os signos do elemento terra são Touro, Virgem e Capricórnio.

Pessoas do signo de Touro têm os sentidos físicos muito apurados. A suavidade do toque, a sensualidade, os odores, uma boa comida. Memória olfativa significante. Tradicionais, família e propriedade são prioridade. Conservadores, resistem à mudança. Podem deixar as coisas como estão. Obstinação ou teimosia costumam estar por perto. Trabalhadores e pragmáticos querem resultados concretos.

O indivíduo de Virgem vai querer ajudar, socorrer e, freqüentemente o faz mesmo, é muito prestativo. Fica ansioso, angustiado, querendo ver tudo funcionando em um mundo tão complexo, tão grande, tão desorganizado, tão caótico…. Ele tem habilidade para consertar e colocar as coisas em ordem e funcionando. Para restaurar e curar, pronto a atender e a resolver emergências. Costuma mostrar um lado mais crítico, exigente, e até perder-se nos detalhes.Aquela coisa de olhar a árvore ao invés de olhar a floresta.

Capricórnio, o signo da integridade e da qualidade, pode ter um coração de ouro mas… e o medo da entrega? Fica tateando, sondando o terreno. É cauteloso, cerimonioso, e acaba demonstrando tantas formalidades… Ocupa-se com o dever em primeiro lugar. Espontaneidade? Olha de lado para gente espaçosa. A calma é tanta que corre o risco de chegar atrasado no trem da vida. Fica preparando, melhorando o potencial, buscando o melhor… Quer tanto chegar ao topo, mas… correr riscos é um perigo!

Predominância do elemento AR? Pode abstrair-se tanto, imaginar tantas possibilidades e situações, planejar tanto, olhar tão de fora, refletir e ponderar tanto, que pode chegar ao ponto de dificultar o contato, evitar envolvimento. Seus pensamentos tão rápidos e tantos, se perdem assim, ah…. no balanço do vento. Os signos do elemento Ar são Gêmeos, Libra e Aquário.

O indivíduo de Gêmeos pensa em tanta coisa, é tão inquieto diante do mundo de possibilidades: tantas opções, incluem a dualidade e o querer ‘duas coisas’ ao mesmo tempo. Tudo pode acontecer dependendo de um ponto de vista, variedade, distração, conexões várias, movimento, pode até se perder no meio de campo. Difícil escolher e resolver a quê e a quem dar atenção ou não.

O indivíduo de Libra pode ficar indeciso pelo receio de dizer não ao outro. Pode fugir da raia pelo pavor de quebrar a harmonia, pois tem diplomacia, sensibilidade, refinamento, delicadeza. Só que, por querer agradar a muitos, pode acabar desagradando a si próprio. E pode depositar mais expectativa no outro do que seria adequado ou desejável.

O indivíduo de Aquário é fraternal, amistoso, democrático no social mas, autoritário em suas idéias, busca independência e liberdade, especialmente para si mesmo. Signo que não aceita restrição nem invasão de privacidade. Horror ao tédio. Dependendo do ocorrido, pode decidir desligar, desplugar você da vida dele ou, então, sumir. Ali, você pode esperar o inesperado. O diferente, o incomum, o imprevisível .E até mesmo o Tudo e o Nada.

O elemento ÁGUA tem a ver com emoções, expressão emocional e sentimentos. Os signos do elemento água são : Câncer, Escorpião e Peixes. A predominância deste elemento no mapa contribui para a valorização de vínculos afetivos: a pessoa quer atenção, carinho, aproximação e ligações; quando gosta de alguém, provavelmente vai abrir os braços para um abraço: mas isso varia de signo para signo.

Câncer quer proteger, cuidar, ser carinhoso, amoroso, maternal. Tem ternura, sensibilidade, perceptividade e memória. Quando magoado, pode até perdoar, mas vai lembrar-se daquilo para o resto da vida. Guarda suas fotos, lembranças, recordações, coleções, um registro emocional de fatos importantes na vida. Antes de pretender organizar o quarto de um canceriano deve-se lembrar: quinquilharias, coisas ajuntadas, têm enorme valor e significado real para ele. Atenção e cuidado: não se pode ir assim, invadindo a privacidade de ninguém… e muito menos de um canceriano.
Escorpião, um signo fixo e radical por excelência, vai gostar ou não de você. Tomara que sim, porque ali não tem meio termo. Pode haver um tom desconfiado, sondando, verificando o terreno, antes de um típico Escorpião confiar em alguém. Se confrontado, provocado, atingido ou ferido, ele pode esperar uma eternidade para acertar as contas. Pode, ainda, escolher a opção da indiferença. E pode, também, ir ao fundo do poço para lavar e entregar sua dor e sair de lá completamente renovado e pronto para outras experiências.

Peixes é o signo mutável do amor incondicional, romantismo, da compreensão e compaixão. Ligado à arte e à música. Pode perdoar e compreender, esquecendo-se de si mesmo. Sentir-se de algum modo confuso, decepcionado, desiludido. Tem como sentir e entender a dor do outro a ponto de se ‘misturar’ com ela e senti-la como própria. As águas de Peixes se espalham no sentido da compaixão. E é um aprendizado para Peixes se resguardar, fortalecer-se, separar e delimitar terrenos, abrir os véus do romantismo e da ilusão para não se ferir pela sua delicadeza e sensibilidade. Tanta sensibilidade às vezes se revela como uma ‘exigência excessiva’ em relação a si mesmo e ao outro…

Mas, seja lá de qual signo e como for, o outro é o outro: com seu mundo, seus valores, suas qualidades e potencialidades, seus desafios e suas defesas; suas ações, intenções e esperanças. Por isso tudo, é adequado e até necessário, interessante, colocar-se “no lugar do outro”. “Andar com as sandálias do outro”.

Autora: Lourdinha Biagioni – Astróloga

Nenhuma tag Minimizar

1- Qualidades primitivas

As energias mais primitivas começam com o quente (expansão) e o frio (contração), seco (individualização) e úmido( união). As energias primitivas servem de base de apoio para o Zodíaco e para os planetas.

QUENTE –
Plano físico – calor, mobilidade e expansão.
Plano anímico-fisiológico – centrífugo, manifestação da energia vital encerrada nas células.
Plano psíquico – excitante, estimulante e impulsivo

FRIO –
Plano físico – frio, adesão, retração.
Plano anímico-fisiológico – centrípeto, retrai e concentra, acumulações e aglomerações, atonia.
Plano psíquico – concentração, resistência, profundidade.

SECO –
Plano físico – tensão, rigidez, isolar.
Plano anímico-fisiológico – condensação e tensão das energias orgânicas.
Plano psíquico – decisão, precisão, veemência, rigor, obstinação.

ÚMIDO-
Plano físico – união, fluidez, elasticidade .
Plano anímico-fisiológico – materialização, divisão de energia vital mediante os líquidos orgânicos.
Plano psíquico – feminino, passivo, sensível, brando, plástico, flexível.

2- Os temperamentos

artigo08a

a- Temperamento Colérico ou Bilioso – Quente e Seco – FOGO ( corpo vital ou etérico – sangue)

Mostra-se atuante num sangue com pulsação vigorosa; a força mais íntima irá manter sua organização com robustez e energia, e ao se defrontar com o mundo exterior desejará fazer valer a força de seu eu. Caracteriza o homem que quer impor o seu eu em todas as circunstâncias. Grande energia, peito e abdômen alongados, cabelos negros, olhos brilhantes e salientes, rosto quadrado ou retangular, esbelto, pele azeitonada ou amorenada, quente e seca, músculos robustos bem desenvolvidos, magro, braços e pernas compridos, mãos retangulares, dedos fortes, polegar mais comprido — movimentos bruscos e ativos, gosta de exercício, bom apetite, metabolismo acelerado, tem necessidade de fécula e açúcares.
Quem é Fogo, tem intuição e vive à frente do tempo físico. Pode ter angústia porque, quando tenta explicar algo, parece que a intuição acaba, e ele pode chegar à melancolia e depressão. Fogo necessita de motivação e excitação constante; prefere evitar ficar em local fechado. Precisa provocar situações externas fáceis de se dominar e tentar gastar a energia de modo veemente, não em acontecimentos e fatos insignificantes e que não ofereçam resistência.

b- Temperamento Melancólico – Frio e Seco -TERRA (corpo físico)

Pela predominância do corpo físico que opõe resistência aos demais corpos, o homem interior sente obstáculos, pois não consegue dominar o corpo físico, fonte de aflição interior, o qual ele pode apreender através de dor e contrariedade, criando disposição tristonha, melancólica, sendo tocado pela vida de maneira sofrida. Tem muita energia mas pouca excitabilidade, sendo geralmente um tipo longilíneo, com cabeça pendente, olhar voltado para baixo, fisionomia triste, ângulos dos lábios puxados para baixo, dentes pequenos, arcada estreita, pele fria e seca, gordura escassa, músculos pouco desenvolvidos, dedos pontiagudos, gestos enérgicos. Come pouco, é exigente na qualidade da comida, tem bom vigor intelectual, secura, frigidez, rigidez, depressão, petrificação, magreza, artrite, tendências crônicas, facilidade para decodificar a linguagem não verbal pelo predomínio das sensações. Precisa concentrar-se nos obstáculos e dificuldades exteriores, com o objetivo de desviar sua dor para os acontecimentos.

c- Temperamento Sanguíneo – Quente e úmido- AR ( corpo mental – sistema nervoso)

Tem interesse efêmero nas coisas, o qual transfere rapidamente de uma coisa para outra, sem se deter em uma só. Não prende sua atenção e interesse a um objeto. Precisa se colocar na posição de que o interesse passageiro é oportuno. O interior se exterioriza e por isso é esbelto. Pouca energia, grande excitabilidade, tipo físico alto, volumoso ou largo, formas flexíveis, cabelos castanhos; apesar de seu dinamismo é pouco propenso a atitudes físicas, necessita de exercícios ao ar livre. Ar é seu elemento e alimento, tem uma ventilação pulmonar ampla e ampla troca gasosa, é expansivo, alimenta-se bem e gosta de dormir, tendência a obesidade.

d- Temperamento linfático ou fleumático- Frio e úmido- ÁGUA- ( corpo emocional ou astral / sistema glandular)

Tende a buscar vida interior, tende a olhar de modo apagado, incolor, a fisionomia imóvel, com desinteresse por coisas externas .Pouca energia, pouca excitabilidade, tipo físico curto, arredondado, pele branca, lábios carnudos, músculos flácidos, mãos frias e úmidas, gestos moles, andar mole, preferência por alimentos pesados e indigestos, disfunções digestivas, intestinais, no aparelho genital e reprodutor, disfunções físicas e psíquicas, hiper-secreções salivares e gástricas, náuseas, vômitos, vermes intestinais, impetigo, eczemas, enfermidades que tendem à cronicidade e são de difícil resolução, devido à baixa imunidade. Precisa esgotar a fleuma, ocupando-se com a maior quantidade possível de objetos desinteressantes. Tende a se conformar com o seu destino

3- Formação dos elementos

artigo08b

FOGO – energia universal radiante, núcleo dinâmico da energia psíquica (Jung), experiência centralizada na identidade pessoal, decisão, entusiasmo, intuição, impulsividade. O eu é sentido como uma projeção do princípio da vida na natureza e agindo sobre a natureza. Precisa estar ao ar livre, na luz solar e manter-se fisicamente ativo, a fim de captar energia ígnea. Relaciona-se com as salamandras, cuja qualidade é a serenidade.

a- ênfase – hiper-atividade , inquietação, impulsividade, egocentrismo, imediatismo.
b- carência – deficiência digestiva, falta de ânimo, falta de confiança.

TERRA – praticidade, cinestesia, sintonização com os sentidos e o mundo das formas, tendência a ser cauteloso, convencional e premeditado, vê a natureza como um campo para a manifestação da vida. Precisa de contato com a terra, com a natureza, os animais, pisar na lama.. Relaciona-se com os gnomos, cuja qualidade é a generosidade jovial.

a- ênfase – tende a confiar demais nas coisas como elas se apresentam; preocupação obsessiva com aquilo que dá resultado; cinismo ou ceticismo.
b- carência – dificuldade para adaptar-se às necessidades práticas, pode sentir-se deslocado, pode ignorar as exigências do corpo; precisa aprender a respeitar horários.

AR – focaliza suas energias em idéias específicas que ainda não se materializaram; experiência na sua preocupação com as relações teóricas; precisa de ar limpo, leve, acima do nível do mar. Relaciona-se aos silfos, cuja qualidade é a constância.

a- ênfase – hiperatividade mental, a mente pode conduzir a um esplendor conceitual .
b- carência – decisões sem reflexão, dificuldade de adaptação a idéias novas, falta de capacidade para refletir sobre o próprio eu ou a vida.

ÁGUA – motivado por anseios emocionais e sentimentos, sente-se mais feliz quando sua fluidez é canalizada e modelada pelos outros; precisa de envolvimento emocional com tudo o que estiver fazendo. Alcança sua melhor forma psíquica e emocional , quando tem a oportunidade de mergulhar em água corrente, ou estar na presença dela. Relaciona-se às ondinas, cuja qualidade é firmeza.

a- ênfase – hipersensibilidade, reações descontroladas ou descontrole emocional, tendência a extremos comportamentais.
b- carência- dificuldades para se colocar em contato com os sentimentos e necessidades emocionais, desconfiança inata no conhecimento intuitivo, resistência a terapias, toxidez excessiva, que pode conduzir a sintomas físicos de doença.

4- Modalidades operacionais

a- Cardeal ou Cardinal – modo como começa as coisas, iniciador, pode desgastar a energia adoecendo com isso ( necessita de proteína animal). (Áries, Câncer, Libra, Capricórnio)
b- Fixo – modo como cristaliza, concretizador, perseverança, formalidade, possessividade, dificilmente adoece, porém tende a doenças crônicas. ( Touro, Leão, Escorpião, Aquário)
c- Mutável – modo como transforma, tende à mudança ou adaptação; perda de autonomia; capacidade de ver alternativas, flexibilidade; adoece mais facilmente. ( Gêmeos, Virgem, Sagitário, Peixes).

5- Triangularidades dos elementos

Triângulo de Fogo – Compõe as energias que conduzem à ação individual ( Áries) em busca da realização (gesto criador), gerando sua filosofia de vida e suas crenças ( Sagitário). Constitui o triângulo da vida ou da identidade, que pode determinar o dinamismo inato da pessoa. Este triângulo é análogo às Casas I, V e IX.

artigo08c

Triângulo de Terra – Compõe as energias que conduzem à materialização, à sustentação material da pessoa, a partir do reconhecimento de seu caminho ( Capricórnio), por meio de recursos ( Touro) e determinando o servir (Virgem). Constitui o triângulo da matéria ou do poder objetivo; é análogo às Casas X, II e VI.artigo08d

Triângulo de Ar – Compõe as energias que conduzem ao pensamento , expressão e comunicação e relacionamento. Indica o tipo ou condições de relacionamento, o outro ( Libra), o grupo ou os amigos (Aquário) e a troca de informações ou aprendizado (Gêmeos). Constitui o triângulo das relações e é análogo às Casas VII, XI, III.

artigo08e

Triângulo de Água – Compõe as energias que indicam as origens (Câncer), e o que precisa ser transformado (Escorpião) para atingir a totalidade (Peixes). Constitui o triângulo do destino. É análogo às Casas IV, VIII e XII.

artigo08f

Autoria: Izabel Cristina Chrysostomo – Astróloga

Nenhuma tag Minimizar

4. Os clicos de Urano

A primeira coisa a salientar é que, nas épocas em que Urano fica mais ‘saliente’ por trânsito, a pessoa normalmente passa por acontecimentos diferentes daqueles de sua rotina usual, podendo ser preocupantes, repentinos e não esperados. O que mais se sugere é que a pessoa “espere o inesperado’. Os trânsitos de Urano não são maléficos no sentido tradicional, exceto se a pessoa não estiver disposta a aceitar o novo e eventuais mudanças em sua vida. Esse planeta desafia as estruturas rígidas na vida, que a maioria das pessoas se empenha tanto em construir.
Muitas pessoas valorizam tanto a previsibilidade e a regularidade, que chegam a sacrificar a satisfação pessoal para preservá-las. Pensem nos casamentos infelizes que continuam, somente porque ambos os parceiros têm medo da insegurança que a separação traria.

Essas características básicas podem ser aplicadas aos trânsitos de Urano pelas Casas do mapa natal, bem como ‘em cima’ dos planetas da pessoa, considerando-se sempre, é claro, as características específicas em cada caso.

Entretanto, a oposição de Urano a Urano natal é mais forte, normalmente chegando a representar um dos mais importantes trânsitos na vida da pessoa e marcando um período de transição maior. Normalmente, acontece dos 38 aos 41 anos, variando em função de a pessoa ter ou não Urano retrógrado no mapa natal e ter ou não o trânsito ‘com retrogradação’ (v. também Perfuntas e Respostas).

Este trânsito é identificado como sendo aquela crise da ‘meia idade’, quando a pessoa tem de se confrontar com constatações que podem não ser agradáveis. Em primeiro lugar, a pessoa percebe que ainda não é velha, mas que também não é mais jovem. Além disso, ela se coloca questões a respeito de suas realizações até o momento (por exemplo, se foram adequadas), inclusive se está satisfeita com seus relacionamentos, seu eventual casamento, sua atividade profissional.

Muitas pessoas, quando passam por essa oposição, descobrem de repente que a resposta para tais questões é negativa, e quando isso acontece, a pessoa sente uma certa urgência (o tempo urge!), como se ela tivesse pouco tempo para consertar ou corrigir o(s) problema(s). Conseqüentemente, a pessoa pode começar a agir meio depressa e apelando para rompimentos não planejados ou esperados, decidindo por uma separação no casamento ou sociedade empresarial, deixando um trabalho que parecia seguro e até adotando um estilo de vida completamente diferente do que vinha tendo.

As atitudes da pessoa podem surpreender (e mesmo chocar) até os parentes e os amigos mais próximos, inclusive pelo fato de que ela começa a preferir a companhia de pessoas mais jovens, que lhe parecem mais ‘arejadas’, já que a juventude é um símbolo das oportunidades que talvez sinta que desperdiçou. E a pessoa de alguma forma ‘sente’ que as oportunidades que está enxergando nessa ocasião podem ser as últimas!

Mas pode acontecer também que a pessoa não tome decisões drásticas, se aproveitou bem as oportunidades que tenha tido antes e não permitiu que sua vida se tornasse prematuramente rígida ou ‘de pessoa velha’. Nesse caso, terá a verdadeira experiência do significado desta oposição, qual seja o auge do direcionamento que sua vida tomou (desde a adolescência) e a mudança de direção apontando para os aspectos que deverá confrontar quando tiver mais idade, digamos, depois dos 50 anos.

Cada período da vida tem funções específicas, sendo que antes desta oposição — que podemos dizer que configura a metade de uma vida, — normalmente a pessoa confrontou o mundo exterior, provocou um impacto nele e aprendeu tudo o que quis a respeito dele. Durante a segunda metade de sua vida, a pessoa sente um apelo para se voltar para o seu mundo interior e começar a colher as conseqüências do que encontrou e fez na primeira metade. De agora em diante, a pessoa talvez procure aproveitar suas experiências mais para o mundo interior, com o objetivo de se sentir melhor como indivíduo: refletirá mais sobre o significado da vida, de suas relações, do seu trabalho, etc.

Se a pessoa teve sucesso nos seus contatos com o mundo até então, continuará a tê-lo, mas a partir dessa ocasião será mais exigente quanto aos significados das ‘suas coisas’, os quais deverão satisfazer sua percepção momentaneamente mais aguçada. Então, a pessoa pode se sentir incapaz de viver dedicada somente a um propósito exterior, um casamento sem vida, um trabalho ou atividade profissional vinculada apenas ao dinheiro (conquanto aqui no Brasil e atualmente, este assunto seja bastante delicado), pois tem uma certa intuição da inquietude provocada pelo ‘vazio interior’.

5. Comentários finais

Tudo começou com a idéia de se escrever sobre a oposição de Urano, que alguns interessados estão vivendo nesta ocasião. Entretanto, achei que tal análise ficaria muito solta, já que essa oposição se situa entre uma vivência importante de Júpiter aos 36 anos, e uma oposição importante de Saturno por volta dos 44 anos… Então, considerei interessante transmitir algo mais extenso, pelo menos sobre a dinâmica transmitida pelos planetas de Júpiter em diante – e o artigo acabou ficando como ficou, levando-me inclusive a estas conclusões.

É claro que todos os “planetas” têm seus ciclos, mas o salto maior no tempo orbital se dá de Marte para Júpiter (de cerca de 2 anos para 12), razão por que normalmente não se analisam os ciclos mais rápidos. Entretanto, o ciclo do Sol, o grande luminar, é bastante estudado, porque propicia a análise do chamado “retorno solar” (anualmente, quando o Sol passa exatamente pelo ponto em que estava no mapa natal), que se considera simbolizar o ano seguinte (e que geralmente é analisado também em relação com esse mapa natal).

Tendo como referência um enfoque amplo dos ciclos planetários, — do ponto de vista dos desafios, ou seja, das crises propiciadas pelas quadraturas e oposições (excetuado o ciclo de Júpiter, já que considerei apenas seus retornos, para dar um contraponto a esses desafios), — pode-se perceber que ninguém passa incólume por notáveis influências na década dos 40 aos 50 anos, porque então se dá (sempre em termos aproximados) =

40 anos = oposição de Urano a Urano natal
42/43 anos = quadratura de Netuno com Netuno natal
44/45 anos = segunda oposição de Saturno a Saturno natal
45/46 anos = quadratura de Plutão com Plutão natal…

Haja estrutura! Pode-se dizer que quem teve ou tiver boas sintonias ao longo dessa década, chegará aos 50 anos sentindo uma espécie de renascimento (muitos sentem como uma segunda juventude), que ocorre logo após um dos retornos de Júpiter (aos 48 anos); e é por isso que mais adiante falo em redirecionamento…

E então, não poderia deixar de citar Quíron, que considero um planetóide, que para mim tem muito significado, e cuja órbita se situa entre a de Saturno e a de Urano, constituindo basicamente uma “ponte” entre ambos e cujo ciclo (retorno) se dá por volta dos 51,5 anos da pessoa; como sua órbita é bastante excêntrica e segue uma elipse, passa muito mais tempo em alguns signos do que em outros, razão por que suas quadraturas e oposições variam muito em percurso (tempo), dependendo do “lado”do Zodíaco em que se encontra (mas não vou mencionar indicações a respeito delas, porque seria muito extenso).

Assim sendo, do ponto de vista da “cura”do ser humano, a “chacoalhada” final (‘esticando aquela década para 11,5 anos) se dá com esse retorno de Quíron…Em seu ótimo livro “Quíron e a jornada em busca da cura”, Melanie Reinhart considera que “a configuração de Quíron quase sempre descreve o tipo de conexão existente entre o indivíduo e seu sofrimento interno, bem como um caminho passível de levá-lo à cura… e também descreve a natureza da cura que a pessoa pode oferecer aos outros. Essa faculdade é observada quer a pessoa trabalhe ou não profissionalmente no campo da cura, porquanto se trata mais de uma qualidade natural, de uma emanação, do que de uma técnica aprendida”. Ela considera que Quíron pode manifestar a sombra, em termos psicológicos (aquilo que está “atrás” ou “por baixo” de nossa percepção consciente), e que esta “é amiúde projetada nos outros e revelada por uma forte ‘carga’ emocional ou reação incontrolável diante de certa pessoa, de um sistema de crenças ou de um grupo racial”. E que “não existe um único fator astrológico que represente a sombra; qualquer parte do mapa pode indicar qualidades que estão reprimidas ou inconscientes e, portanto, aparentemente ausentes”.
Desta forma, Quíron indica o “curador ferido”, a área onde sentimos medo (o que também é representado por Saturno) ou onde sofremos dor ou danos, mas, se processado e compreendido adequadamente, podemos aprender muito com ele. Ou seja, para dissolver nossa dor, podemos desenvolver nossa ‘metade superior’ (dharma) à custa da ‘metade inferior’ (karma), o que nos remete à própria imagem de Quíron, cuja metade superior era representada pelo curador sábio, e a metade inferior, pelo animal ferido.

Finalmente, os chamados nós lunares (“cabeça e cauda do dragão”) também podem indicar fatores kármicos e, através da sua análise no mapa natal, e dos seus trânsitos, mostrar energias e áreas com problemas e/ou represadas e que devem ser trabalhadas.

À vista de tudo o que foi exposto, é fácil depreender que a análise de um mapa astral, num dado momento da vida da pessoa, — e conforme citado anteriormente, — deve de preferência levar em conta o mapa natal, o mapa progredido (uso o método do arco solar) e os trânsitos, porque só assim se tem um quadro geral e completo da dinâmica dessa pessoa, já que vida alguma é estática (independentemente da própria pessoa).

Para encerrar, espero ter transmitido que as análises do mapa natal e da dinâmica ao longo da vida da pessoa podem desvelar o seu caminho, quer seja apenas exterior (no mundo material), quer seja também no mundo interior (individuação, desenvolvimento e evolução espiritual).

Tendo a referência de Saturno como “senhor do tempo e do karma”, distingo seis fases na vida possível de uma pessoa, – dividida basicamente de acordo com os ciclos de Saturno (cada uma das três frases à direita abrangendo dois ciclos) =

1. até os 15 anos = crescimento (receber a vida)
2. dos 15 aos 30 anos = amadurecimento
3. dos 30 aos 45 anos = compartilhamento (compartilhar a vida)
4. dos 45 aos 60 anos = consolidação/ redirecionamento (interior)
5. dos 60 aos 75 anos = recolhimento (irradiar a vida)
6. dos 75 aos 90 anos = irradiação

Que frase poderia melhor encerrar este meu artigo, do que

“SER OU NÃO SER, EIS A QUESTÃO!”….?

Marco Aurélio Teixeira Fernandes

Nenhuma tag Minimizar

3. Os ciclos de Saturno

Saturno é talvez o mais importante dos planetas para se examinar nos trânsitos, porque representa o modo e a forma como você vê e experimenta o Universo, em função da estrutura que você deu a ele. A localização de Saturno em trânsito, no seu mapa, indica o setor de sua vida que está sendo examinado e testado nessa época. A Casa em que Saturno está representa as áreas de maior tensão em sua vida, para as quais você deve direcionar uma atenção maior. Os planetas sobre os quais Saturno transita no seu mapa natal representam as energias em sua vida que estão sendo desafiadas e os padrões de comportamento que pedem uma revisão maior.

A maioria das pessoas experimenta os trânsitos de Saturno, como se este planeta fosse uma força exterior, que estaria completamente fora de controle; freqüentemente, um trânsito de Saturno parece resultado do destino, e usualmente um destino desagradável. Mas você deve entender que Saturno representa o modo como você programa seu universo no nível mais profundo e fundamental. Conseqüentemente, a energia de um trânsito de Saturno nunca é verdadeiramente externa, porque a sua mente consciente evita a responsabilidade pelo que está acontecendo, e assim a mente inconsciente toma o controle, programando o acontecimento inconscientemente. Então, você não sofre os efeitos até que o mundo exterior reaja e um acontecimento “destinado” a você ocorra, o qual não é nada mais do que o Universo respondendo às suas próprias ações.

Não importa quão desagradável um trânsito de Saturno possa parecer quando analisado, ele representa aquilo que você realmente quer na vida e está ajudando você a consegui-lo. Muitas pessoas desconhecem o que realmente querem; se você entende perfeitamente seus desejos e necessidades, descobrirá que Saturno simplesmente concretiza a manifestação deles. As “perdas” que Saturno traz são de coisas que você não quer ou das quais não necessita; não importa quanto pense que as quer, desapegue-se delas, especialmente dos relacionamentos que Saturno possa terminar.

Quando Saturno transita por uma Casa, você deve prestar muita atenção aos assuntos dessa Casa; não é um sinal de que tudo nessa Casa está indo mal, mas você deve direcionar sua consciência para esse setor e descobrir como deveria se relacionar com tais assuntos. Se está numa boa situação, que seja apropriada nesta época de sua vida, o trânsito dará consistência e estruturará tal setor para você. Se não está numa boa situação, Saturno trará grandes mudanças, que serão desagradáveis, sobretudo na medida em que você resistir a elas. Saturno, entre outras coisas, representa o “mestre interior”, que nos ensina o que realmente somos.

Antes, porém, de destacar os diversos comentários, ressalto que, ao fazê-los, estarei tendo como referência a grande massa de nossa sociedade, representada pela classe média, — aqui configurada como aquela das pessoas que estão inseridas no contexto de trabalho e formação cultural e educacional da sociedade, — sem querer entrar no mérito da difícil conjuntura atual.

Dentro desse contexto, é preciso lembrar que muitos de nós estudamos e vivemos o que se configurou como uma revisão nos padrões da educação de filhos, enfocada pelos sistemas pedagógicos vigentes nas décadas de 60 e 70 e destacada em dois dos livros então muito discutidos, chamados “Liberdade sem medo”e “Liberdade sem excesso”, e que fomos testemunhas das grandes mudanças trazidas pela chamada revolução sexual em particular e dos costumes em geral que então ocorreram. Na década de 90 e na atual, assoladas pelo consumismo e pela globalização, ainda não conseguimos ter tão claros como gostaríamos, os padrões a serem transmitidos a nossos filhos (e /ou netos), enquanto ficamos torcendo para que não se percam neste mundo em transformação, cujos apelos exteriores ligados ao mundo da ilusão – onde a Internet adquire todos os coloridos mágicos possíveis, — são ostensivamente mais fortes do que os interiores.

Assim sendo, necessariamente, as crises de experiências vinculadas com o estabelecimento, sedimentação e amadurecimento dos limites, responsabilidades e objetivos na vida, trazidos por Saturno, diferem atualmente bastante daquelas que nós mesmos vivemos e enfrentamos naquelas décadas.

Coloco esse contexto de referência porque decidi que os comentários a seguir, neste artigo, — que, para ser considerado como tal, não pode ter a profundidade propiciada por um livro específico, — possam nos lembrar de nossas experiências, mas, ao mesmo tempo, também ser encaixados para auxiliar nossas reflexões quando transportados para nossos filhos (e/ou netos).

Os principais trânsitos de Saturno que são estudados são as oposições e os retornos, conforme abaixo; as quadraturas (‘crescentes’, aproximadamente aos 7, 37 e 66 anos; as ‘decrescentes’ aos 22, 51,5 e 80 anos) devem ser encaradas como períodos intermediários entre os outros trânsitos, representando, de qualquer forma, períodos críticos e de desafios das responsabilidades pessoais.

Então, tenho a dizer o seguinte, sobre os principais trânsitos =

a) aos 14,5 anos – primeira oposição = é quando o adolescente, tendo vivido a expansão propiciada pelo primeiro retorno de Júpiter, aos 12 anos, se vê agora diante da primeira grande confrontação com o mundo exterior, que tem a ver com experiências necessárias sobretudo para o estabelecimento de limites, no presente, para que possa se capacitar para estabelecer responsabilidades e objetivos em sua vida futura. O grupo familiar e a escola constituem o “campo de batalha”, o destaque maior das experiências se dando em função do mapa natal de cada um. De qualquer maneira, é nesta ocasião que são plantadas as sementes do amadurecimento da pessoa. A liberdade de expressão individual, – desde as trivialidades da convivência familiar, até as incertezas e inseguranças trazidas pelas experiências sexuais (que podem ter começado anos antes), – é necessariamente confrontada com o mundo exterior, representado pela família, companheiros de estudo e diversão, amigos, namorado(s) e namorada(s), etc. É nesta ocasião que se pode pela primeira vez falar de maneira objetiva em caráter da pessoa, no caso, do adolescente.
Se ele será mais seguro, arrojado, assertivo, realizador, ou inseguro, tímido, indeciso e sonhador, está sendo clivado na amálgama de sua personalidade nesta época, que normalmente se estende até os 16/17 anos. O adolescente normalmente já concluiu o estudo fundamental e já definiu (com ou sem a ajuda dos pais) o tipo de ensino médio que abraçou, o que o levou a “pensar no futuro” de uma maneira diferente do que viveu até esta ocasião; é claro que pode ocorrer simplesmente que ele decida “não continuar os estudos”, dedicando-se desde logo a uma profissão artística ou outra qualquer. Ou ainda ficar anos perdido no mundo da ilusão, neste caso provavelmente dominado por alguma droga, seja o álcool ou outra mais forte, hoje em dia tão presente nas escolas…
Em outras palavras, é a época em que os valores pessoais passam do contexto do grupo para o do indivíduo, e as palavras “escolha” e “decisão” precisam deixar de representar signos exteriores e serem vividas mais conscientemente.
A quantidade de adolescentes que têm tido filhos nesta ocasião, reflete claramente a crise que temos vivido, da falta de valores interiores, de forma que eles precisam sentir (é claro que como resultado de pulsões subconscientes), através de ‘algo’ exterior incontestável, – no caso um ser humano produto de si mesmos, – que são pessoas, indivíduos.

b) aos 29 anos – primeiro retorno (conjunção com Saturno natal) = após uma crise aos 22 anos (de uma quadratura de Saturno) e outra vivência aos 24 anos (do segundo retorno de Júpiter), a pessoa chega à “idade da razão”, configurada por uma crise de amadurecimento que vai, digamos, dos 28 aos 33 anos de idade. Tendo ou não completado uma formação educacional – e eventualmente se especializado, – e abraçado uma atividade profissional, uma carreira, a pessoa se vê confrontada com a necessidade de estabelecer mais claramente suas responsabilidades e objetivos na vida. Muitos já se casaram e até já tiveram filhos. O mundo, através de Saturno, se encarrega de cobrar o resultado do indivíduo exteriorizando suas capacidades, que a esta altura devem estar totalmente desenvolvidas. Capacidade de produzir, trabalhar, ganhar dinheiro, e ter forma individual de expressão, mostrar-se como indivíduo perante outra pessoa (o companheiro ou companheira), o grupo familiar e o grupo social. A pessoa conscientiza que precisa saber administrar a sabedoria adquirida até esta época, através da materialização dos seus recursos e dos seus talentos, e saber administrar o seu tempo. Eu diria que, usualmente, é nesta época que a pessoa, pela primeira vez, tem a noção (embora equivocada) do tempo como uma coisa “exterior” que não depende dela e que ela não domina, que “o tempo passa” e que ela NÃO TEM todo o futuro pela frente, mas, sim, uma vida LIMITADA PELO TEMPO, que ela precisa planejar. As escolhas e decisões (eventualmente ainda não concretizadas) são reconhecidamente mais importantes, mais caracterizadas por duração maior: o casamento, ter filhos, progresso na carreira, realização material.
Consciente ou inconscientemente, a pessoa fica inclinada a podar tudo aquilo que não é relevante para sua condição real de ser humano; se o processo for inconsciente, a pessoa pode experimentar uma sensação de perda em relação a tudo que estiver “terminando”, porque este ciclo representa uma época de finalizações e novos começos. Se a pessoa se apega a coisas/pessoas que não são apropriadas para ela, identificará este período como sendo de crise; se se preparou nos anos anteriores, este retorno simplesmente marcará uma época de maior materialização e o começo de novas fases de atividade. Se, entretanto, o amadurecimento se deu de maneira satisfatória, a pessoa não sente as experiências e necessidades como um “peso”, uma carga, mas sim como fatores intrínsecos da existência. Assim sendo, nesta época são plantadas as sementes de uma realização pessoal (material) sem culpa, na medida em que o indivíduo faça as escolhas e tome as decisões de acordo com sua consciência e seu caráter, seu temperamento.
É a melhor época possível para se iniciar um trabalho interior, porquanto o mundo exterior usualmente já está plantado, e a pessoa começa a sentir que esse mundo exterior não é suficiente para fazê-la feliz.
Novamente, o contato e a identificação maior ou menor com o mundo da ilusão depende do mapa natal de cada um, os 15 anos seguintes podendo ser marcados por uma expansão exagerada no mundo material (e o retorno de Júpiter aos 36 anos estará propiciando isso), ou uma sintonia mais consciente com os dois mundos. A cobrança dos resultados aí implícitos se dará na oposição se Saturno aos 44 anos.

c) aos 44 anos – segunda oposição = após ter passado pela crise da oposição de Urano, aos 40 anos, a pessoa nesta ocasião se vê confrontada com a necessidade de entrar numa nova fase de percepção da vida. As três crises ou vivências anteriores (aos 29,5, aos 36 e aos 40 anos) devem ter sido marcantes e a avaliação dos resultados agora é importante para definir os 15 anos seguintes. Se, com a oposição de Urano, houve mudanças ou rompimentos na família, no casamento, no trabalho, etc., esta ocasião traz as energias necessárias para uma nova sedimentação; se houve atitudes mal planejadas, “erros de cálculo”, falhas, apego excessivo a um padrão de “juventude” por volta dos 40 anos, a pessoa sentirá agora a “crise da meia idade” com um peso maior.
Especificamente, como Saturno tem a ver com responsabilidade, a pessoa pode estar vivendo no trabalho um pico de sucesso, que será acompanhado por uma responsabilidade maior. Por outro lado, se as evidências são de que a pessoa não está bem sintonizada no trabalho, haverá demonstrações de dificuldades exteriores (p.ex., verá seus esforços serem bloqueados por colegas ou superiores), o que não deve significar que a pessoa deva se sentir insegura, mas, sim, investir suas energias para encontrar os problemas e resolvê-los, mesmo que isso implique em mudanças radicais. Infelizmente, muitas pessoas não conseguem superar as crises/perdas e em conseqüência, pode acontecer um colapso da saúde, através de um ataque cardíaco (bastante freqüente nesta idade, como resultado de um excesso de auto-exigências), manifestação de diabetes ou hipertensão crônica; considero que o problema do pânico também acontece com freqüência aqui, porque pode resultar das dificuldades da pessoa em confrontar/enfrentar a realidade exterior, numa ocasião em que ainda se sente com saúde física (mas talvez não emocional suficiente).
Por outro lado, se os negócios estão tendo resultados positivos, esta ocasião representa o pico do sucesso material, já que a pessoa terá feito o impacto que gostaria de ter feito no mundo; e, nos próximos 14 anos, o mundo lhe mostrará as conseqüências ou frutos do que ela é como pessoa, do que plantou.

d) aos 59 anos – segundo retorno = dependendo de como foi a oposição aos 44,5 anos e a vivência do retorno de Júpiter aos 48 anos, a pessoa terá usufruído uma boa fase de consolidação no mundo material, as mesmas “cobranças” de sintonia ocorridas aos 29,5 anos voltando a acontecer agora, só que numa outra situação exterior. Novamente, a configuração poderá adquirir um caráter mais positivo ou negativo, dependendo de como a pessoa se encaminhou nos últimos 15 anos = se houve mais harmonia para o lado positivo, a pessoa sente que pode se dedicar mais ao seu desenvolvimento espiritual, sem prejuízo de suas atividades no mundo exterior; se houve menos harmonia, a pessoa volta a estar mais sujeita ao acometimento de problemas de saúde, sobretudo estresse, ou um dos outros citados na oposição aos 44,5 anos. Vale ressaltar, entretanto, que, se a falta de paz interior é grande, uma doença (“dis-ease”) de caráter incurável (um câncer maligno, p. ex.) pode surpreender a pessoa.
Logo em seguida, a pessoa viverá um retorno importante de Júpiter (aos 60 anos), quando (cf. foi mencionado antes) terá a tendência de fazer uma balanço de sua vida (realizações), vendo descortinar-se um futuro com um outro nível de possibilidades. Se a pessoa não fizer suas escolhas mais “definitivas” nesta ocasião (eu diria, acentuando mais o lado material ou o espiritual), dificilmente o fará após ela.
Devemos lembrar que Júpiter, por estar vinculado com “excessos” pode contribuir para que a pessoa tenha perdido o controle dos prazeres sensuais (comidas, bebidas) e/ou sexuais; e que o infarto do miocárdio pode acontecer por uma influência de Júpiter (excesso de sangue) em conjuminância com algum outro planeta, razão por que, novamente, uma análise completa propiciará uma avaliação mais precisa da situação e tendências…
Embora seja um assunto muito controvertido, eu diria que é nesta época que a pessoa pode estar se sujeitando mais (pelas suas identificações e estilo de vida) à manifestação de doenças como o “mal de Parkinson” ou “mal de Alzheimer”.

e) aos 73,5 anos – terceira oposição = se a pessoa, por ocasião de mais um retorno de Júpiter, aos 72 anos, se sentiu realizada, esta oposição será benfazeja, porquanto não sentirá a “cobrança do senhor do tempo e do carma”. Viverá o restante de sua vida, – qualquer que seja o tempo que lhe resta, – usufruindo a tranqüilidade e os frutos do que plantou.
Caso contrário, a inquietude da “velhice” a acompanhará e ela provavelmente ficará mais dependente do mundo exterior (cuidados do companheiro ou companheira, da família, etc.). Mais uma vez, uma análise completa do mapa (com progressões e trânsitos) poderá mostrar, – ou comprovar, – até que ponto a pessoa estará sujeita às agruras do tempo (perda de memória, de mobilidade física, etc.).

Lembremo-nos de que, para aqueles que a morte representa apenas uma passagem, a última etapa da vida (que estou situando a partir dos 70 anos) pode ser muito gratificante, em termos de preparação para essa passagem.

Finalmente,
NÃO ESQUEÇA QUE ENVELHECER É OBRIGATÓRIO; AMADURECER É OPCIONAL.

Em tempo:
- é lamentável que em português não haja um verbo menos marcante para a fase do envelhecimento, que em inglês se usa como “aging”, que se vincula apenas com ganho de idade;
- peço encarecidamente que você considere que não é possível generalizar tudo o que comentei, inclusive pelo fato de que há diferenças sensíveis entre o “aging” do homem e da mulher, que varia conforme a fase da vida; eu diria que a mulher usualmente amadurece primeiro, mas também envelhece primeiro, sobretudo no que diz respeito às influências de Saturno (pele e ossos incluídos);
- muitas variações que se possam notar nas influências de Saturno dizem respeito não só ao signo do nativo (Capricórnio costuma ‘envelhecer’ mais lentamente, ou mostrar menos as marcas do tempo), mas também à ocorrência de retrogradações (v. Perguntas e Respostas).

Marco Aurélio Teixeira Fernandes

Nenhuma tag Minimizar

1. Introdução

A análise da personalidade de alguém, através da Astrologia, pode ser feita incluindo não só o chamado mapa astral (ou natal), mas também as progressões, a revolução solar (ou retorno solar, a cada ano, quando o Sol ‘volta’ ao mesmo ponto do nascimento) e os trânsitos.

Quando faço alguma análise, costumo estudar o mapa natal, mais a progressão chamada ‘por arco solar’ e os trânsitos, separadamente e em conjunto. As progressões representam analogias simbólicas, sendo que nas secundárias um dia após o nascimento corresponde a um ano de vida, e naquelas ‘por arco solar’, um grau percorrido pelo Sol é considerado para todos os corpos celestes, também valendo cada grau, para um ano de vida; só que neste último método, é claro que o percurso simbólico dos corpos é mais ‘rápido’ do que no outro método. Em qualquer um dos métodos, considera-se que há uma dinâmica energética “interna” à personalidade do analisando. Já os trânsitos correspondem ao percurso dos corpos celestes, “sobre” (comparado com) o mapa natal, representando portanto as energias externas, como elas estão no momento da análise.

O que considero como ciclos na Astrologia são resultantes dos trânsitos dos corpos celestes. Há diversos ciclos que podem ser identificados, dentre os quais, aqueles vinculados aos planetas e que são mais utilizados: os de Júpiter, Saturno e Urano; tais ciclos têm a ver com a órbita desses planetas (uma volta completa no Zodíaco, por parte de cada um deles), sendo aproximadamente, o de Júpiter de 12 anos, o de Saturno de 29,5 anos e o de Urano de 82 anos.

Para quem estuda ou analisa progressões, o ciclo da Lua também é importante, porque sua volta em torno da Terra é de 29,5 dias (em média), e na progressão secundária (v. acima) esse ciclo coincide com o de Saturno citado no item anterior (trânsito); e é muito bom associar a análise da Lua progredida com Saturno em trânsito, porque os dois têm a ver com o passado, além de outros significados importantes. Entretanto, este ciclo da Lua está fora do escopo deste artigo.

Mas tem me chamado a atenção, também, o fato de que podemos estudar determinados ciclos parciais, representados pelos percursos dos planetas (trânsitos) ao longo de trechos do mapa natal, e associados (comparados com) a esse mapa natal. Assim sendo, verifica-se facilmente que quem atinge 60 anos tem dois “retornos” de Saturno, e que o retorno de Urano se dá uma vez só (de 80 a 82 anos). Já um ciclo completo de Netuno requer em torno de 165 anos e o de Plutão, em torno de 245 anos; assim sendo, ninguém tem retorno destes dois últimos planetas numa existência neste planeta.

Então, considero interessante analisar os ciclos parciais representados por Netuno e Plutão. Esclarecendo melhor, se considerarmos uma existência humana de 80 anos, a pessoa não chegará a ter a oposição de nenhum desses dois planetas, mas tem a oportunidade de viver uma quadratura e um trígono, de cada um deles.

No caso de Netuno, como ele demora cerca de 14 anos para percorrer cada signo, uma pessoa que viver 80 anos viverá seu trânsito, aqui no Brasil, provavelmente em 5 ou 6 Casas (setores), ou seja, “percorrendo” no máximo metade do seu mapa natal; já no caso de Plutão, como seu percurso é mais variado, devido à sua órbita excêntrica (de 13 a 32 anos por signo), uma pessoa que viver 80 anos viverá seu trânsito, provavelmente apenas em 5 casas, talvez parte de uma 6a.
Mas é aí que está a parte interessante desta questão. Como nós astrólogos sabemos que Netuno e Plutão, em boa parte do século passado ficaram em sêxtil, verificamos que as pessoas nascidas a partir de 1.930 foram (e eventualmente estão sendo) marcadas pela presença desses planetas, desde Virgem até Aquário (Netuno) e de Câncer a Sagitário (Plutão), o que configura então um tipo de influência em mais de uma geração (considerada a cada 30 anos). É por isso que muitos falam “a geração de Plutão em Leão” (nascidos de 1940 a 1958)”, “de Plutão em Virgem” (nascidos de 1958 a 1972), “de Plutão em Libra” (nascidos de 1972 a 1984).

É claro que cada uma dessas “gerações” teve conotações diferentes trazidas por Netuno, mas um estudo mais aprofundado requereria um espaço maior do que o de um artigo como este…

Falando de outro ponto de vista, é fácil de se ver, num mapa natal, que os trânsitos mais marcantes desses planetas, ao longo da maior parte da vida adulta de uma pessoa, “marca” predominantemente um quadrante do mapa natal, do que resulta que, numa primeira “vista d’olhos” num mapa, podemos detectar onde (em que setores) sua influência predomina(rá): por exemplo, uma pessoa que tem tido tais trânsitos destacados nas Casas 4, 5 e 6, teve, tem tido ou terá mais salientes os setores da família/ segurança emocional (4), auto-estima/filhos/criatividade/ paixões (5) e trabalho/serviço/saúde (6).

Ressalto ainda o fato de que a turma que nasceu em torno de 1961/62, — e que portanto esteve ou está “enfrentando” a oposição de Urano – ao nascer teve Netuno em Escorpião e Plutão em Virgem, em sêxtil, o que significa que todos vieram com habilidade para perseguir valores espirituais, enfrentar a batalha entre os desejos materiais e os espirituais, dando mais valor à regeneração do que à estagnação e podendo, portanto, desempenhar um papel transformativo no mundo, através de um poder discriminativo maior e dando importância à saúde no sentido amplo – ou partindo para a fuga em direção às drogas, ao “easy way out”.

Quem nasceu em 1961 (exceto em novembro), ou até 9 de agosto de 1962, teve ainda Urano em Leão e teve a oposição recentemente. Urano em Leão ressente a autoridade, transmite a necessidade da liberdade de expressão individual, da criatividade individual; tal turma (de um modo geral) sente revolta contra os padrões estabelecidos, mas precisa entender que isso não basta, que é preciso oferecer alternativas que representem uma melhoria para o sistema, e que será somente através de esforços combinados que se poderá restaurar a sinceridade de propósitos, a honestidade e a responsabilidade moral, a todos os níveis do poder público.

É claro que a posição no mapa natal de cada um depende da posição do Ascendente, podendo tais planetas caírem em qualquer quadrante. Entretanto, abstraída essa questão, e considerando as posições genéricas citadas desses três planetas chamados “exteriores”, eu diria que é uma turma forte, que agora, com Plutão transitando Sagitário, pode desempenhar um papel importante na luta por valores justos, corretos, honestos, — e contra a corrupção em qualquer nível (desculpem a repetição).

Na análise dos ciclos de Júpiter, como são mais rápidos, costumo considerar apenas cada ciclo completo; no caso de Saturno, são mais salientes as oposições e os retornos (voltas ao mesmo ponto), mas às vezes se levam em conta também as quadraturas; e, no caso de Urano, é considerada mais saliente a oposição, que costuma ocorrer entre os 38 e os 41 anos de idade da pessoa.

2. Os ciclos de Júpiter

Júpiter é tradicionalmente conhecido como o “grande benéfico” (o outro sendo Vênus), e na Astrologia clássica é tido como acarretando sobretudo o que é bom; de fato, um trânsito de Júpiter usualmente é bastante agradável e freqüentemente benéfico: a vida parece fluir mais facilmente, e qualquer coisa que você pretenda fazer, usualmente atinge o sucesso que objetivou.

Num nível mais fundamental, Júpiter significa a expansão individual, para incluir mais e mais do Universo e sua experimentação, na esfera de cada um; é o planeta do crescimento, da expansão, do aumento das coisas. Por outro lado, num nível trivial, Júpiter muitas vezes só aumentará alguma coisa ou tornará uma ação grandiosa ou exagerada. O efeito da energia de Júpiter na sua vida pode ir desde fazer você ganhar peso, até expandir seu mental e sua consciência.

Júpiter também tem uma dimensão social, porque é vinculado com o ‘fator adesivo’ que junta as coisas, e é por isso que rege as leis e o sistema legislativo, assim como as pessoas no poder e os oficiais do governo, uma função que compartilha com o Sol. Uma manifestação negativa de certos trânsitos de Júpiter pode ser ‘problemas com a lei’.

A Casa (ou setor) em que Júpiter está no seu mapa natal pode indicar quais são seus ‘dons’, seus talentos natos e onde tem facilidade para obter coisas. A Casa em que está transitando indica mais a área da vida na qual você está tentando crescer e os meios pelos quais está fazendo isso. O processo pode ser um crescimento necessário e merecido, que faz de você uma pessoa mais sábia e com mais sucesso, ou pode ser um crescimento patológico – se você está tentando conseguir algo em excesso, ou ir longe demais nesse setor. Ou seja, é importante evitar obter mais do que você merece, sobretudo por ocasião das quadraturas ou oposições, quando você estará mais propenso a isso. A lei de conservação universal das energias diz que a pessoa pode transformar as energias em sua vida, mas que não conseguirá criá-las do nada, e portanto deve compreender que deve doar tanto quanto espera receber…

Júpiter também significa os aspectos mais elevados de sua vida – sua visão global da vida (o significado da vida), suas atitudes em relação a religião e crenças, e seu senso de idealismo.

Conforme mencionei na Introdução, os trânsitos mais comentados de Júpiter são os retornos, que ocorrem aproximadamente a cada 12 anos, já que ele demora esse tempo para dar a volta no Zodíaco, o que significa que leva cerca de um ano (em média) para percorrer cada signo. Assim sendo, Júpiter em trânsito faz conjunção com o Júpiter natal, aos 12, 24, 36, 48, 60, 72 e 84 anos, etc. — indicando geralmente o começo de um novo ciclo de crescimento e progresso; para os menos avisados, pode acontecer o foco de expectativas exageradas.
Destaco, então, alguns comentários específicos a respeito desses retornos, exceto o de 84 anos:

a) aos 12 anos = é quando a criança percebe que está deixando de ser ‘criança’ e está entrando na adolescência (usualmente considerada dos 13 aos 19 anos); normalmente, a criança experimenta uma expansão, no sentido de que percebe mais o mundo à sua volta (não só sua família, seus colegas de escola, seus amigos mais próximos), e também passa pela experiência das transformações hormonais (maior produção de hormônios, acentuando as características do sexo masculino ou feminino) e por isso começa a desafiar as estruturas de autoridade tanto em casa quanto na escola, porque tem um pouco a impressão de que ‘pode’ tudo e mesmo inconscientemente ou subconscientemente provoca essas estruturas (dependendo do mapa astral, às vezes com excessos). É comum a criança experimentar uma expansão do mental, que lhe dá a impressão (correta) de que o saber não ocupa lugar, — começando então a manifestar seus interesses em termos de estudo, carreira, etc., com mais concernimento. Ressalva: nesta época, o desafio da autoridade pode ser uma experimentação; por ocasião dos 14,5 anos (primeira oposição de Saturno), geralmente é uma confrontação (v. ciclos de Saturno).

b) aos 24 anos = é quando o jovem normalmente já concluiu seus estudos e já entrou (ou está entrando) no mercado de trabalho, sentindo uma ‘nova onda energética’ de expansão, desta vez acentuadamente no mundo material, porque percebe mais claramente que já é adulto, mas que, para marcar sua posição no mundo, precisa ‘consegui-la’ através do esforço da realização individual; isso significa que essa onde de expansão precisa sedimentar… Entretanto, nessa época, acontece bastante que o jovem faça mais exigências do que, digamos assim, merece, em termos de indivíduo inserido num contexto familiar, grupal ou social. O que significa, então, que o sucesso dependerá de como se coloque no mundo, de seu concernimento com o mundo que o cerca (da sedimentação); sementes mal plantadas poderão resultar em frutos mal colhidos no futuro, em outros ciclos.

c) aos 36 anos = é quando o adulto, possivelmente amadurecido (v. os ciclos de Saturno), provavelmente já se casou, já constituiu família, — muitas pessoas já têm filhos, — e é então bafejado por uma nova onda energética de expansão, tendo ímpetos de fazer crescer sua atividade profissional ou sua(s) empresa(s), adquirir nova(s) propriedade(s), realizar sonhos materiais postergados devido à dedicação à formação e especialização educacional e à constituição de família. Muitas pessoas se dedicam à política a partir desta ocasião. Ela pode indicar o início de um ciclo de consolidação da individualidade e da realização material.

d) aos 48 anos = o adulto já passou pelo ciclo da oposição de Urano, e também por uma importante quadratura de Saturno (por volta dos 44 anos, quando começou este desafio) e nesta altura de sua vida sente necessidade de ampliar seus horizontes. Muitos já têm filhos criados e decidem retomar os estudos (ou mesmo uma segunda formação universitária), galgar postos de chefia, de diretoria, de político mais poderoso. A onda de expansão aqui tem mais a ver com a expansão do círculo de poder, influência, realização e satisfação pessoal.

e) aos 60 anos = esta idade representa uma das mais importantes dos ciclos planetários, pois há a interpretação de que, do ponto de vista das progressões secundárias, todos os planetas fazem o ângulo de 60º (sêxtil) com os respectivos planetas natais, acentuando portanto todas as características natas da pessoa. Se essa acentuação é mais positiva (o mais comum) do que negativa, depende do mapa natal de cada um. A pessoa então já passou pelo importante segundo retorno de Saturno, quando deve ter feito um balanço de sua vida e de suas realizações até então, vendo descortinar-se à sua frente um futuro com um outro nível de possibilidades, sejam materiais ou espirituais, dependendo, novamente, do seu mapa natal.

f) aos 72 anos = muitas pessoas têm a oportunidade de acentuar ainda mais as possibilidades apontadas no retorno dos 60 anos, já admitindo que sua existência atual caminha para um fim, que pode ou não estar próximo, mas que dificilmente se situará acima de 20 anos; ou seja, poucos têm então a expectativa de atingir 90 anos. E, portanto, a tendência é de que se dediquem tão-somente a acentuar suas realizações, em que nível forem.

No Brasil, onde a idade para aposentadoria não era estabelecida até recentemente, muitas pessoas vinham se aposentando mesmo antes dos 50 anos, a maioria, creio eu, tendo esta oportunidade por volta dos 60 anos (sobretudo os homens, já que as mulheres em muitos setores têm podido se aposentar com 25 anos de trabalho).

Complementando o que foi dito acima, para aqueles que se vêem aposentados aos 60 anos, e sem obrigações maiores com filhos e netos, ou parentes próximos de quem devam cuidar, abrem-se as oportunidades para um outro nível de expansão interior, através de estudos esotéricos mais aprofundados, da prática da meditação e/ou até a literatura, seja como leitores, seja como escritores (é o caso do José Saramago, p.ex., que atingiu o sucesso após os 60 anos). Por outro lado, muitos, quando têm as condições materiais necessárias, preferem viajar e desvendar novos horizontes através do conhecimento de outras culturas…

Finalmente, devo salientar que os trânsitos de Júpiter e Saturno adquirem um significado mais interessante quando examinados em conjunto, porquanto Júpiter simboliza basicamente a expansão e Saturno a limitação. E a oposição de Urano se insere entre um retorno de Júpiter (aos 36 anos) e uma importante quadratura de Saturno (aos 44 anos)…

Marco Aurélio Teixeira Fernandes

Nenhuma tag Minimizar

Cada vez mais, neste mundo ocidental, – talvez neste planeta, atualmente, – nos vemos confrontados com crises, sejam em face da conjuntura econômica do país em que vivemos (e que nos atinge diretamente), seja em decorrência do que nos parece a falência das instituições e das estruturas de poder, que estão a soçobrar, – como conseqüência inclusive de recorrentes atos de corrupção que parecem não ter fim.

Entretanto, a vida de cada um de nós, — sem contar a dos entes queridos, com os quais convivemos, — deve continuar, mau grado os acontecimentos, que nas cidades grandes às vezes até parecem “atropelar” nosso dia-a-dia, levando-nos a refletir sobre um futuro cada vez mais incerto, ou pelo menos inseguro.

Não obstante, aqueles de nós que procuramos outros significados na vida, têm a possibilidade de notar que a vida de cada um tem um lado interior e um lado exterior, este último representado por fatos e acontecimentos envolvendo situações e (muitas vezes, também) pessoas à nossa volta. Nesse sentido, é importante observar, então, que a vida exterior corresponde à vida interior, ou seja, os fatos e acontecimentos correspondem à estrutura mental de cada um, ou, como diz Martin Schulman (autor de diversos livros, dentre os quais uma série chamada “Astrologia kármica”), “você é o que você pensa, tendo se tornado o que pensou”, ou ainda, como diz o autor inglês A. R. Orage, “ o seu nível de ser atrai a sua vida”.

Não é muito comum que as pessoas aceitem essas afirmações, razão por que um dos principais fenômenos na vida, as mudanças (ou mesmo as transformações), encontram grande resistência por parte daquelas que não se confrontam com elas e, conseqüentemente, ficam condicionadas a ter muitos imprevistos e decepções.

Viver com sabedoria implica saber observar, interpretar, compreender e lidar satisfatoriamente com os fatos e acontecimentos, de forma que os desafios e as mudanças ou transformações pelos quais temos de passar representem realmente desafios e lições, e não castigos em nossas vidas; assim, quem vive com sabedoria caminha na direção de uma vida mais responsável, intensa e significativa, do ponto de vista interior de uma pessoa que compreende que a evolução interior (espiritual) é o fator mais importante de uma vida com significado.

Em conseqüencia, é claro que tudo isso depende da consciência de cada um, já que viver com consciência significa ter consciência das conseqüências dos próprios atos. Para os menos concernidos, pode parecer uma vida chata e monótona, mas para os mais concernidos, é uma vida de tranqüilidade interior, em que a pessoa vive em paz consigo mesma, — pois, após seu amadurecimento interior, que é o resultado da confrontação dos desafios como vetores de mudanças, — já dissolveu as culpas do passado e as inquietudes representadas pelo futuro, liberando-se portanto das “amarras” do tempo e do karma.

Como disse um crítico a respeito de um filme, recentemente, “os acontecimentos são mais ou menos os mesmos para a maior parte das pessoas, mas o ‘como’ cada um os vive varia bastante”, — e eu acrescento: porque depende de cada um, de sua consciência e sabedoria, de seu nível de ser.

Trago agora outro ponto de vista, para transmitir que o exercício do livre arbítrio, — tão discutido, porque tão pouco compreendido, — não é tão simples, porque primeiro, implica consciência e sabedoria, segundo, porque implica escolhas ao longo da vida. Não é possível cada um de nós viver todas as experiências humanas, nem mesmo aquelas que estão indicadas no mapa astral (que representa um “campo de possibilidades”, não um destino), devendo cada pessoa, perante acontecimentos possíveis, exercer o livre arbítrio para, em cada situação, viver o que lhe parece melhor e mais adequado para si mesma, naquela determinada situação e, de preferência, tendo como referência o objetivo que quer alcançar para si em termos de realização pessoal (interior) – o que quer que isso signifique para ela.

Por outro lado, por mais que as pessoas se acomodem em suas vidas, a dinâmica das energias sutis as fará sentir um vazio ou uma inquietude interior. É a partir desse enfoque que podemos afirmar que a Astrologia pode servir de ferramenta, para que a pessoa, utilizando o próprio mapa astral, desenvolva o autoconhecimento e se prepare adequadamente para os desafios e as mudanças ou transformações que estão indicadas em sua vida (as energias sutis representadas aqui também pelos corpos celestes, inclusive com seus ciclos).

O mapa natal astrológico (ou mapa astral), que reflete o momento do nascimento da pessoa, aliado a outros ‘mapas’ que refletem a dinâmica ao longo de sua vida, — inclusive o de um determinado momento de consulta a um astrólogo, — se bem analisado (de preferência mediante interação com o analisando) –, pode apontar não só as qualidades e limitações da pessoa, mas também mostrar os desafios que deve confrontar, as escolhas que estão apontadas ao longo de sua vida, e ainda os significados mais salientes que lhe foram inculcados antes do seu nascimento e dos quais ela é portadora nesta vida.

Destaco aqui um trecho do ótimo livro de Stephen Arroyo, ‘Astrologia, karma e transformação’:

“Como Jung salientou muitas vezes nos seus escritos, aquilo com que não estamos conscientemente em contato aparece-nos como ‘destino’. Parece acontecer-nos e, assim, não nos responsabilizamos por isso, nem reconhecemos o nosso papel na sua manifestação. Quanto mais uma pessoa está conscientemente em contato com a sua vida interior, mais a Astrologia oferece – não surpresas sensacionais ou um modo de manipular o destino – mas um meio de clarificar as fases de autodesenvolvimento que devemos vencer e utilizar como oportunidades para a transformação pessoal.”

Citando frases conhecidas, “navegar é preciso, viver não é preciso” e “viver é muito perigoso”, encerro dizendo que é por tudo isso que a vida é maravilhosa, uma dádiva divina, e que cabe a cada um de nós cultivar a semente que lhe foi dada, para se transformar no fruto que lhe foi atribuído e que está, misteriosa e potencialmente, no âmago do seu coração, encontrando então a luz interior e a felicidade.

‘Sucesso não vem da ausência de desafios, mas da sempre ampliada capacidade para vencê-los e beneficiar-se deles’
(Odir de Oliveira).

Marco Aurélio T. Fernandes

Minimizar

O que for a profundeza do teu ser, assim será teu desejo. O que for o teu desejo, assim será tua vontade.
O que for a tua vontade, assim serão teus atos. O que forem teus atos, assim será teu destino.
Brihadaranyaka Upanishad IV, 4.5

 -

Convidado a dar minha opinião, resolvi escrever esta contribuição para o assunto palpitante – e para mim cada vez mais urgente – da transcendência, por considerar que esta é a verdadeira vocação do ser humano. Refletindo sobre como enfocar essa questão, decidi transmitir excertos de um livro, cuja leitura me foi indicada recentemente, chamado “Os demônios de Loudun”, de Aldous Huxley, o autor bastante conhecido por ter escrito “Admirável mundo novo”, que foi um baluarte da contra-cultura na década de 60. Esse outro livro, bastante menos conhecido, apresenta a história romanceada de Urbain Grandier, cura da cidade francesa de Loudun, no século XVII. A leitura do livro é fascinante, não só pela erudição do autor, que desvenda a intricada trama do pensamento místico da época, mas também e sobretudo pela análise que faz dessa questão da transcendência. Coloco aspas no excerto inteiro, porque são minhas apenas algumas palavras que costuram trechos do livro e do seu apêndice.

“Sem a compreensão do desejo profundo que têm os seres humanos de se autotranscenderem, da relutância natural que experimentam em tomar o caminho duro e difícil da ascensão espiritual, e da conseqüente procura de uma falsa libertação, ou abaixo ou sob um aspecto de sua personalidade, não poderemos entender a época em que vivemos ou mesmo a História em geral, a vida como foi vivida no passado e como o é em nossos dias. Por esta razão, proponho discutirmos alguns dos mais comuns sucedâneos da Graça, nos quais e através dos quais homens e mulheres têm tentado escapar da torturante consciência de serem apenas eles mesmos.

Introspecção, reflexão e registros do comportamento humano no passado e no presente tornam bastante claro que um anseio de autotranscendência é tão comum e às vezes tão forte, quanto a necessidade de auto-afirmação. Os homens desejam intensificar a certeza de serem a pessoa que pensam que são, mas também desejam – freqüentemente com incrível veemência – a sensação de serem alguma outra pessoa. Em suma, eles anseiam libertar-se de si mesmos, ultrapassar os limites desse pequeno universo isolado dentro do qual todo indivíduo se encontra confinado. Este desejo de autotranscendência não é semelhante ao desejo de escapar à dor física ou mental. Em muitos casos, na verdade o desejo de evadir-se da dor reforça o anseio de autotranscendência. Contudo, o último pode existir sem o primeiro. Se não fosse assim, as pessoas saudáveis e bem-sucedidas, que têm obtido “uma excelente adaptação à vida”, jamais sentiriam o anseio de transpor seus próprios limites. Mas na realidade elas o sentem. Mesmo entre aqueles a quem a natureza e a fortuna contemplaram generosamente, encontramos não poucas vezes um horror profundamente enraizado de sua própria individualidade, um forte anseio de livrar-se da repulsiva e mesquinha identidade à qual a absoluta perfeição de seu ‘ajustamento à vida’ os têm condenado sem sursis.

Qualquer homem ou mulher, o mais feliz (pelos padrões da sociedade), não menos que o mais desgraçado, pode chegar, de repente ou gradualmente, à percepção e ao conhecimento puro de seu ser. Esta compreensão intuitiva da individualidade gera um angustiante desejo de ir além do eu isolado. Em outras palavras, se experimentamos uma necessidade de autotranscendência é porque de algum modo obscuro e apesar de nossa ignorância consciente, sabemos quem realmente somos. Sabemos (ou, para ser mais explícito, alguma coisa no nosso íntimo sabe) que o fundamento de nosso saber individual é idêntico ao Fundamento de todo o conhecimento e de toda a existência; que Atman (a mente escolhendo adotar o ponto de vista temporal) é o mesmo que Brahman (a mente em sua essência eterna). Sabemos de tudo isso, embora possamos jamais ter ouvido falar das doutrinas nas quais a verdade Fundamental tem sido relatada, e ainda que aconteça de sermos versados nelas, podemos considerá-las ilusórias. E nós também conhecemos seu resultado prático, o qual propõe que o objetivo, fim, desígnio final de nossa existência é dar espaço no “tu” para o “Outro”, é afastar-se de forma que o fundamental possa vir à superfície de nossa consciência; é “morrer” tão definitivamente que possamos dizer: “Estou crucificado com Cristo; apesar disso estou vivo; contudo não eu, mas Cristo vive em mim”. Quando o eu consciente transcende a si mesmo, o Ego essencial está livre para perceber, em termos de uma consciência finita, a verdade de sua própria eternidade junto com a realidade correlata de que cada particular no mundo das sensações partilha da intemporalidade e do infinito. Isso é libertação, é esclarecimento, é a visão beatífica, na qual as coisas são apreendidas no que são ‘em si mesmas’, e não em relação a um eu odioso em seus desejos insaciáveis.

Sabemos de maneira vaga quem somos. Por isso nosso desgosto de precisarmos parecer ser o que não somos e o ardente desejo de ultrapassar os limites desse eu aprisionado. A única autotranscendência libertadora é através do altruísmo e entrega total à inspiração, ou na conscientização da união com o Fundamental na qual sem sabermos temos sempre vivido. Contudo, a autotranscendência libertadora é mais fácil de explicar do que de atingir. Para aqueles que se encontram intimidados pelas dificuldades do caminho ascendente, existem alternativas menos árduas.

A autotranscendência não é, de modo algum, invariavelmente dirigida para cima. Na verdade, na maioria dos casos é uma fuga, ou em sentido descendente, para um estágio inferior da personalidade, ou mesmo horizontalmente, para algo mais amplo que o ego e no entanto não mais elevado, não outro estado, essencialmente falando. Estamos eternamente tentando mitigar os efeitos da Queda coletiva na personalidade isolada, por outra queda estritamente pessoal no embrutecimento ou na loucura, ou por alguma mais ou menos recomendável evasão através da arte ou ciência, política, um hobby ou um emprego. É desnecessário dizer que estes sucedâneos, subumanos ou tão-somente humanos, da Graça, são na melhor das hipóteses insatisfatórios e na pior, desastrosos.

As alternativas ilusórias de transcendência trazem uma questão muito importante. Até que ponto e em que circunstâncias é possível a um homem usar o caminho descendente para atingir a autotranscendência espiritual? À primeira vista, tudo parece indicar que o caminho para baixo jamais terá a oportunidade de ser o caminho para cima. Mas no domínio da existência os problemas não são tão simples como são no nosso bonito e bem organizado mundo das palavras. Na vida real um movimento descendente pode algumas vezes se tornar o início de um ascendente. Quando a concha do ego é partida e começa a surgir uma consciência subliminar e fisiológica do “não-eu“ sob nossa personalidade aparente, acontece algumas vezes que captamos um lampejo, rápido mas apocalíptico, daquele “Não-eu“, que é o Fundamento de todo o nosso ser. Enquanto permanecemos isolados em nossa identidade, não temos consciência dos diversos não-eus aos quais estamos ligados – o não-eu orgânico, o não-eu subconsciente, o não-eu coletivo do meio psíquico no qual nossos pensamentos e sentimentos têm sua vida, e o imanente e transcendente não-eu do Espírito.

Qualquer fuga, mesmo através de um caminho descendente, para fora da individualidade insulada, torna possível uma percepção ao menos momentânea do não-eu em cada nível, incluindo o mais elevado. ‘Revelações anestésicas’ são algumas vezes experimentadas por alcoólatras e existem talvez momentos durante a intoxicação produzida por quase qualquer tipo de droga, quando a percepção de um não-eu superior ao eu em processo de desintegração se torna possível por um breve lapso de tempo; mas esses momentâneos surtos de revelação custam muito caro. Para os viciados em drogas, o momento de percepção espiritual (se acontece realmente) cede bem cedo lugar a um estupor subumano, exaltação ou alucinação, seguidos por terríveis ressacas, e a longo prazo, por um enfraquecimento permanente e fatal da saúde física e mental. Uma vez ou outra uma única ‘revelação anestésica’ pode agir, como qualquer outra manifestação da divindade, no sentido de estimular quem a experimenta a um esforço de autotransformação e autotranscendência ascendente. Mas pelo fato de tal coisa poder eventualmente acontecer, não se justifica o emprego de métodos químicos de autotranscendência. Esse é um caminho descendente e a maioria dos que o tomam atingirá um estado de degradação, onde períodos de êxtase subumano serão alternados por períodos de individualidade consciente tão miserável que qualquer fuga, mesmo que seja para o suicídio lento do vício das drogas, será preferível.

O que é verdade quanto às drogas, também o é, mutatis mutandis, quanto à sexualidade primária e à intoxicação das massas, embora esta última possa desintegrar o ego muito mais profundamente do que aquela. Entretanto, uma análise mais detalhada destas duas modalidades de autotranscendência descendente prolongaria demasiadamente este artigo.

No que se refere à autotranscendência horizontal, pouco precisa ser dito – não porque o fenômeno não seja de importância (longe disso), mas por ser por demais óbvio para exigir análise e por ocorrer com tanta freqüência que se torna difícil de ser classificada em poucas palavras. Para escapar dos horrores do eu insulado, a maior parte dos homens e mulheres escolhem, na maioria das vezes, não subir nem descer, mas escapar para os lados. Eles se identificam com uma causa maior que seus próprios interesses imediatos, mas que não os faz cair na degradação, e, se mais elevada, sem ultrapassar os níveis dos valores sociais correntes. Esta autotranscendência horizontal ou quase horizontal pode estar em qualquer coisa tão trivial quanto um hobby, ou tão valiosa quanto um casamento por amor. Pode ser produzida através da auto-identificação com qualquer atividade humana, desde a gerência de um negócio até a pesquisa sobre física nuclear, de compor músicas até colecionar selos, do dever político de educar crianças aos estudos dos hábitos matinais dos pássaros.

A autotranscendência horizontal é da maior importância. Sem ela não haveria arte, ciência, lei, filosofia, nem, na verdade, civilização. E não haveria também guerra, nem constantes intolerâncias, nem perseguições. Esses grandes bens e imensos males são decorrentes da capacidade do homem para uma total e constante auto-identificação com uma idéia, um sentimento, uma causa. Como poderemos ter o bem sem o mal, uma civilização avançada sem bombardeio de saturação ou extermínio de hereges políticos ou religiosos? A resposta é que não poderemos ter isto enquanto nossa autotranscendência permanecer apenas horizontal. Quando nos identificamos com uma idéia ou causa estamos de fato adorando alguma coisa comum, incompleta e provinciana – alguma coisa que, embora nobre, é contudo ainda demasiadamente humana. “Patriotismo“, como uma grande patriota concluiu no dia de sua execução pelos inimigos de seu país, “não é o suficiente“. Nem o socialismo nem o comunismo, nem o capitalismo; nem a arte, a ciência, a ordem pública, nenhuma religião ou igreja. Tudo isso é indispensável, mas nada disso é o bastante. A civilização exige do indivíduo uma auto-identificação devotada às mais elevadas causas da humanidade. Mas se esta auto-identificação com o que é humano não é acompanhada por um esforço consciente e congruente, visando a atingir a autotranscendência ascendente, no sentido da vida universal do Espírito, os bens alcançados estarão sempre misturados a males que os contrabalançam. “Fazemos“, escreveu Pascal, “da verdade um ídolo; porque a verdade sem amor não é Deus, mas Sua imagem e ídolo, a quem não devemos amar nem venerar“. E não é apenas errado adorar um ídolo; é também excessivamente inconveniente. A adoração da verdade separada do amor cristão – auto-identificação com a ciência não acompanhada de identificação com o Fundamento de todo o ser – resulta no tipo de situação com que presentemente nos defrontamos. Todo ídolo, por mais sublime que seja, transforma-se, com o tempo, num Molock, faminto de sacrifício humano.”

Marco Aurélio Teixeira Fernandes

 

Nenhuma tag Minimizar

Desde tempos imemoriais o ser humano se inquieta com a duração tão efêmera de uma vida – e pôde observar que os fenômenos que se desenrolam na esfera celeste demonstram a existência de entidades que parecem ter duração muito maior, o que permitiu aos antigos respeitar os astros visíveis como ‘deuses’. Muitos séculos antes de Cristo diversas civilizações encararam e viveram essa questão tão palpitante de muitas maneiras, os egípcios se destacando com seus processos de mumificação dos corpos e suas pirâmides para guardá-los; os gregos introduziram a palavra ‘psyché’, ou psique, que veio a ser interpretada também de formas variadas, evoluindo através dos séculos, tanto entre eles quanto na civilização ocidental posterior.

Em civilizações mais ao leste, como a japonesa, a chinesa e a indiana, as questões referentes ao significado da vida e possível evolução do ser humano parecem ter tido um tratamento mais para o lado de aceitarem a questão da evolução – vinculada com a da reencarnação — como ‘fazendo parte’ da vida. Entretanto, podemos dizer que as nossas crenças se fundamentaram mais nas dos gregos e depois dos romanos…

Fazendo aqui uma espécie de parêntese na seqüência do raciocínio, ponderamos que Junito Brandão, em seu ‘Dicionário Mítico-Etimológico’ (pág. 278), expressa que “a palavra grega daimon… que, através do latim eclesiástico daemoniu(m), nos deu demônio, procede do verbo daiesthai, ‘repartir, dividir’… Só a partir do latim cristão é que ‘demônio’ passou a significar ‘espírito maligno, diabo, satanás.’” Desse mesmo ponto de vista, o DIABO (raiz diabolu) pode ser visto como um estado em que aconteceu uma divisão do ser, que passou a encarar o bem e o mal como coisas separadas e de certa forma exteriores ao ser. Isso não faz lembrar a ‘Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal’, que o Adão original não deveria ‘conhecer’? Ou seja, a ‘história da maçã’ parece uma fantasia, que o Catolicismo quis vincular à sexualidade mal reprimida em diversas épocas da história… As pessoas foram perdendo a noção do ser e da realidade do todo, passando a ver o mal como algo exterior a ser evitado e o bem, a ser conquistado, através de atos.

Para os gregos, a psyché não era propriamente a alma como a vemos hoje, mas correspondia sim a uma espécie de entidade que sobrepassava a morte do corpo físico. E, para eles, a imortalidade não era como a vemos hoje, uma existência após a morte, sem fim. Junito Brandão, na obra supracitada, no verbete “imortalidade”, só fala em imortalidade dos deuses…

Com o advento do Cristianismo, a transposição que se fez das crenças dos egípcios e gregos já perdeu bastante em relação ao que se havia ‘incorporado’ como aceitável. Entretanto, com o predomínio posterior do Catolicismo, ao longo de séculos de dominação religiosa, as crenças – e as traduções dos textos bíblicos – foram sendo adaptadas para servirem aos interesses prevalecentes.

Nossas sociedades das Américas, — em particular as da América do Sul, — foram ainda mais prejudicadas pelas cisões que aconteceram na Idade Média e após a mesma, quando os ‘descobrimentos’ e colonizações se difundiram; e nós brasileiros fomos colonizados basicamente por portugueses e espanhóis, que já seguiam um Catolicismo deturpado. Por diversas razões, inclusive essas ligadas às cisões, passaram a conviver dois níveis de crenças envolvendo o Misticismo = as exotéricas e as esotéricas. As exotéricas são exteriores, destinadas aos não-iniciados, e as esotéricas são (e eram) destinadas aos iniciados nos (grandes) mistérios. Assim é que, durante muitos séculos, até as igrejas católicas tinham setores demarcados para as classes religiosas e para as não-religiosas, aqui incluído o povo.

É interessante observar também que durante esses muitos séculos os religiosos se arrogaram o direito de conservar o proteger o conhecimento esotérico. Foi assim com os templários, e tem sido assim com os monges beneditinos, dentre outros exemplos; há controvérsias sobre a atuação dos templários nos descobrimentos que vieram a ocorrer posteriormente à sua dissolução como ordem monástica. Sabe-se, porém, que eles foram perseguidos e supostamente o poder reinante ‘tomou posse’ de muitos de seus conhecimentos (lá pelos idos de 1307 d.C., data convencionada).

Com o passar dos séculos, o Catolicismo deturpou questões marcantes, como as da culpa, do sofrimento, da ‘salvação da alma’, do maniqueísmo (bem x mal) e passou a pregar a negação da reencarnação. Segundo muitos estudiosos, o Cristianismo, em sua origem, tinha e transmitia tais verdades de maneira menos focalizada, sendo que a reencarnação aparentemente era aceita como uma delas. Parece que foi interessante, para as mentes deturpadas da Idade Média, fazer o povo acreditar que quanto mais sofrimento atingisse as pessoas, mais elas ‘se capacitariam a ganhar o Céu’. Como o contato com os níveis mais sutis da realidade requer um nível mais sutil (mais puro) de quem os busca, ao longo do tempo foi havendo uma dicotomia cada vez maior entre o exotérico e o esotérico.

Assim sendo, pode-se expressar que os ensinamentos esotéricos foram sendo escondidos dos não-iniciados, daqueles que não os merecessem (embora nem sempre houvesse avaliação justa a respeito). Só mais recentemente, no fim do século XIX e início do XX, tivemos um refluxo do interesse pelo (e menos ‘controle’ do) esotérico, com o reaparecimento por exemplo da Teosofia e do chamado Quarto Caminho, além de um novo desabrochar de conhecimentos como o da Alquimia, da Astrologia, da Cabala e do Tarô, sem nos esquecermos, é claro, da Psicanálise, e depois da Psicologia, que surgiram com o século passado e tiveram as enormes contribuições (respectivamente) de Sigmund Freud e Carl G. Jung.

Apesar da dicotomia e dos descompassos entre o exotérico e o esotérico, pode-se dizer que ao longo dos séculos a maior parte dos seres humanos se habituou a aceitar que o Universo teve uma origem ‘divina’ e que esses seres têm uma ‘centelha’ do Divino dentro de si, o que implica uma possível evolução dessa centelha (retorno ao Divino). Assim, a efemeridade da vida de um ser humano isolado adquiriu um significado maior do que seus atos ou realizações, o exercício do poder etc., ao longo de uma única existência.

Em decorrência, a noção de alma, como ligação entre o Espírito e o corpo físico, tem tido muitas interpretações, ao longo do tempo e pelas diversas religiões estabelecidas. Tentando juntar mais ou menos o que se estuda nos ‘sistemas’ mais conhecidos, consideramos que podemos falar em Espírito, alma e corpo (físico), sendo o Espírito pré-existente e portanto ‘eterno’, a alma (em latim ‘anima’) tendo sido criada pelo Espírito para ‘animar’ tal corpo, sua força vital. Daí a se considerar que a alma pode evoluir, é uma convicção que dividimos com boa parte da humanidade atual, como se só essa possibilidade desse significado e sentido à nossa vida….

Mas essa noção e convicção da ‘origem no’ e ‘volta ao’ Divino só tem sentido se vinculada à noção de que o Espírito, por ser originalmente não manifestado, ao ‘aceitar’ a manifestação, impregnou-a de uma ‘fome do divino’, que em nós seres humanos é sentida como uma insatisfação interior – que no meio psicológico se convencionou chamar de ‘angústia vital’, — a qual subjaz em nossos seres interiores e em nossas vidas, qualquer que seja a realização no nível material –, enquanto não atingirmos um nível de realização interior compatível com aquela origem.

Como um fenômeno que nos diz respeito especialmente, expressamos a opinião de que nós, no Terceiro Mundo, fomos prejudicados pela amálgama cultural que se cristalizou com predominância de valores materiais e religiosos equivocados, de forma que no nosso meio a dificuldade de acesso ao esotérico é muito maior, conquanto não impossível; ou seja, estamos vivendo uma condição de banalização da religião (no sentido original de “religação”), à qual temos de reagir por opção individual e com bastante empenho. É claro que, como resultado dessa situação, no mundo ocidental temos visto, cada vez mais, um interesse pelo lado material da vida, razão pela qual também se verifica a grande incidência atual de doenças vinculadas com o coração e outras, que refletem a falta de sintonia do homem moderno com seu centro, seu ser interior e sua evolução possível.

Para discorrermos sobre a questão da ‘angústia vital’ e da necessidade intrínseca ao ser humano, de buscar uma transcendência, recorremos ao livro “Os demônios de Loudun”, em cujo anexo o autor Aldous Huxley expressa:

“Sem a compreensão do desejo profundo que têm os seres humanos de se autotranscenderem, da relutância natural que experimentam em tomar o caminho duro e difícil da ascensão espiritual, e da conseqüente procura de uma falsa libertação, ou abaixo ou sob um aspecto de sua personalidade, não poderemos entender a época em que vivemos ou mesmo a História em geral, a vida como foi vivida no passado e como o é em nossos dias.”
É facilmente reconhecível que o anseio de autotranscendência é tão forte quanto a necessidade de auto-afirmação. O ser humano sente uma necessidade de ultrapassar os limites do pequeno universo isolado dentro do qual se descobre confinado; e isso acontece, mesmo entre aqueles mais afortunados financeira e materialmente.

E então, se experimentamos essa necessidade, é porque algo em nós sabe quem realmente somos; e percebe a possibilidade de o eu consciente transcender a si mesmo e ao seu universo de desejos insaciáveis.

Entretanto, a única autotranscendência libertadora é através da união com o Self; mas logo se descobre que é muito difícil de ser atingida — e para aqueles que não conseguem se dedicar bastante a ela, existem alternativas menos árduas: na maioria dos casos é uma fuga, ou em sentido descendente, ou horizontalmente, para algo mais amplo que o ego (e, no entanto, não mais elevado). Qualquer fuga para fora da individualidade insulada pode propiciar percepções momentâneas do não-eu em diversos níveis, em que alguns períodos de êxtase subumano são alternados por períodos de individualidade consciente tão miserável que qualquer recurso extremo, como o suicídio lento das drogas, parece preferível. E atualmente se reconhece que o que é verdade quanto às drogas também se aplica à sexualidade primária e à intoxicação das massas.

Não obstante, de um ponto de vista mais abrangente (e exotérico) a autotranscendência horizontal é da maior importância, pois, através da identificação com uma causa ou uma atividade que possibilite escapar do horror do eu insulado, muitas pessoas se expressam através da arte, da ciência, de uma atividade profissional qualquer ou de um casamento por amor; mas também se expressam através da intolerância e das perseguições, que muitas vezes levam a guerras. Paralelamente, se a auto-identificação com o que é humano não é acompanhada por um esforço consciente e congruente, visando a atingir a autotranscendência ascendente, os bens alcançados estarão sempre misturados a males que os contrabalançam – e uma insatisfação interior permeia o indivíduo.

Então, o que falta ao ser humano, atualmente, é perceber que não poderemos ter o bem sem o mal, enquanto nossa autotranscendência permanecer apenas horizontal. Enquanto isso, insistimos, cabe a cada indivíduo a busca em si mesmo do reencontro com seu ser interior e a religação com o Self. Esse reencontro, salientamos, não precisa ser através de uma crença ou religião estabelecida, mas sim e sobretudo através de uma mudança de foco em relação às prioridades de sua vida e do concernimento com um novo modo de ser.

Marco Aurélio Teixeira Fernandes

Nenhuma tag Minimizar

 Página 1 de 4  1  2  3  4 »

© 2009 - www.chiron.com.br Voltar ao Topo